Crônicas, pensamentos e reflexões.

O princípio da utilidade

“Não é preciso muito para matar uma pessoa: basta convencê-la de que ninguém precisa do que ela faz”

Fiódor Dostoiévski foi certeiro nesta afirmação. Abordou, no século dezenove, algo que foi proposto formalmente em 1981 por Richard M. Ryan e Edward L. Dec, como a Teoria da Autodeterminação. Para simplificar, basta sabermos que ela sugere que os seres humanos possuem três necessidades psicológicas básicas, sendo elas: autonomia, competência e relacionamento. Dostoiévski tocou de forma genial no que se refere a competência e relacionamento.

Note que isso vai além de aprovação ou reconhecimento superficial, pois toca, diretamente, na relação do ser humano com um propósito, onde sentimos que podemos contribuir com algo que vai além de nós – o que, imediatamente, acaba com qualquer possibilidade de associação com a vaidade -; ainda que, por falta de conhecimento, possam ser confundidos.

A frase de Dostoiévski toca diretamente em conceitos que tenho abordado ou sugerido ao longo dos anos, como orquestra natural e consciência coletiva e, a questão que fica é: Será que estaríamos redefinindo o necessário para caber nas nossas expectativas, desejos ou interesses? Se sim, que percebamos enquanto há tempo, pois se fosse negociável, não seria necessário.

Como artistas

O corpo físico é como uma tela em branco, onde a mente, através da experiência subjetiva, pinta constantemente a nossa percepção da realidade, interligando o biológico e o mental em um processo dinâmico de criação e recriação do nosso mundo interior e exterior.

Já comentei em outros textos, sobre a inviabilidade para nossa existência, que seria a ausência de uma distribuição coerente de talentos ou habilidades. E, se isto não fizer sentido num primeiro momento, imagine um país, um estado, ou, até mesmo uma pequena cidade, habitada só por pessoas com habilidade em exatas, por exemplo.

Apesar dessa evidência existir desde os primeiros humanos -que produziam ferramentas, coletavam, construíam abrigos, além de práticas artísticas e espirituais-, não vejo a devida importância ser dada.

Fatores como status, melhor  remuneração ou, simplesmente necessidade de pagar as contas, podem estar trazendo um desequilíbrio coletivo.  É um mal silencioso que desdobra em insatisfação, ansiedade e falta de propósito. E, apesar de nocivo, é um comportamento que ganha reforço diante da exposição crescente nas redes sociais. Pois, talvez aquilo que o outro faz lhe de maior visibilidade.

Considerando a hipótese de uma distribuição coerente de talentos, imagino que, de certa forma, deveríamos estar compondo uma orquestra natural, onde a valorização das habilidades não sofreriam, em hipótese alguma, preconceito ou supervalorização. Afinal, não consigo imaginar um violino se gabando para um clarinete.