Crônicas, pensamentos e reflexões.

Projeto Lume

Um termômetro emocional coletivo, em tempo real, que não guarda nada.

→ aanatomiadaalma.com.br/lume


O gesto

Abra a página. Aparecem dez ícones. Toque em um. Acabou.

Não há cadastro, não há senha, não há campo de texto, não há um “conte-nos mais”. A sua escolha entra numa contagem da sua região, e o mapa se pinta com o que muita gente escolheu nos últimos trinta minutos. Passado esse prazo, ela expira e é apagada — não vai para lugar nenhum, não fica em lugar nenhum, não volta.

A frase que rege o projeto está no rodapé da primeira tela:

Sem anúncios. Sem histórico. Sem perfis. Apenas o pulso do mundo, refletido por um instante e deixado ir.

Ela não é slogan; é critério. Cada decisão do projeto foi testada contra essas quatro cláusulas, e várias coisas boas morreram nelas. “Sem histórico” foi o que retirou o download dos dados: não existe exportação, não existe arquivo, não existe série temporal. “Sem perfis” fechou a porta ao identificador por aparelho e ao limite por IP, que seriam a defesa óbvia contra quem quisesse inflar uma região — a ausência dessa defesa deixou de ser um problema em aberto e passou a ser um preço aceito.

O que o mostrador mede — e o que ele não mede

Aqui está a decisão que mais interessa a quem lê este blog, e o erro fácil que ela convida.

O termômetro resume uma região num número entre dois polos. A leitura intuitiva é que esse número diz se as pessoas estão bem ou mal. Não diz. O eixo não é de valência; é de exigência de ação.

Medo manda fugir. Raiva manda atacar. Nojo manda expelir. Tristeza manda recolher. Surpresa manda parar e reorientar. São todas ordens — cada uma estreita o repertório disponível a uma urgência. Alegria não manda nada, e é por não exigir movimento que ela deixa lugar para contemplar.

Daí os nomes dos polos: ação e contemplação. Ação é estar sob ordens; contemplação é não estar. Na literatura, isso encosta nas tendências de ação de Frijda e no broaden-and-build de Fredrickson: o aversivo estreita o repertório, o agradável alarga. Um dos polos já se chamou “angústia” no protótipo, e o nome teve de sair — era nome de valência, e contradizia o próprio eixo que rotulava.

O custo é conhecido e não some: “ação” soa a virtude, e é o polo das emoções aversivas. Não há palavra que conserte isso sozinha, então o mostrador carrega as glosas por baixo — quanto a emoção obriga a agir e quanto a emoção deixa em paz.

Em volta da agulha há uma faixa clara. É a incerteza: com poucos registros ela é larga; com muitos, vira um traço. Uma pessoa sozinha não crava um número. O instrumento admite na tela quando ainda não sabe — o que, como se verá adiante, é o estado normal de um mapa recém-aberto.

Dez emoções, de dois estatutos diferentes

Alegria, serenidade, espanto, ternura, saudade, surpresa, tristeza, medo, raiva e nojo.

Seis são as básicas de Ekman, reconhecidas em qualquer cultura. Quatro não são: serenidade, espanto e ternura são secundárias, e saudade é culturalmente construída. A diferença tem consequência prática, e ela está declarada nos dados — para que ninguém some “medo” com “saudade” como itens de uma mesma escala.

Tem consequência também no desenho: nas emoções básicas o ícone ensina a palavra; nas complexas é a palavra que ensina o ícone. Não existe expressão facial universal para saudade. Isso enfraquece a premissa de “expressar só por ícone”, e é uma fraqueza assumida, não disfarçada.

Saudade não se traduz — e é esse o ponto. Nas versões em inglês, espanhol e francês a palavra continua saudade; o que muda é só a glosa ao lado. Traduzi-la por longing apagaria exatamente aquilo que o modelo marca como emoção culturalmente construída.

A sua coordenada não sai do seu aparelho

O Lume pede localização aproximada, nunca precisa. E mesmo essa coordenada não é enviada: o cálculo de “em que região este ponto cai” acontece dentro do seu próprio aparelho, contra um mapa que veio junto com a página. Só o código da região viaja.

Se você recusar a permissão, o aplicativo pergunta a sua região numa lista e funciona igual.

Modo constelação

Atrás de um botão no mapa, cada região vira uma estrela num céu escuro — do tamanho do seu volume, na cor da emoção que predomina. Linhas ligam as regiões que estão sentindo a mesma coisa, ainda que em continentes opostos.

A posição das estrelas é geográfica, para que você encontre o seu país; a informação nova está na teia. E a semelhança não é entre as composições cruas, mas entre os desvios em relação à média do mundo — porque todo mundo tem um pouco de cada emoção, e comparar as composições diretas fazia duas regiões sem relação nenhuma parecerem 86% parecidas. Centrando na média, a pergunta passa a ser a certa: estas duas se afastam do mundo na mesma direção?

A limitação que só vocês resolvem

Aqui está o motivo deste post, dito sem rodeio.

Um mapa ao vivo tem um problema que nenhuma linha de código resolve: ele precisa de gente ao vivo. Uma região com menos de cinco registros não aparece no mapa — a regra existe para que ninguém fique visível sozinho — e a consequência é que, com pouco movimento, o mapa fica quase todo apagado e o seu próprio estado pode simplesmente não estar lá. A faixa de incerteza fica larga. Na constelação, a teia fica fraca, porque com poucas dezenas de registros por região ela acerta pouco acima do acaso.

Nada disso se conserta com constante. Conserta-se com gente — e de trinta em trinta minutos, porque é esse o prazo de validade de tudo aqui. O Lume não acumula público; ele precisa de presença simultânea. Um mapa povoado é, literalmente, o mapa de quem está ali agora.

Então o convite é pequeno, e é este: abra, toque num ícone, olhe o mapa. E, se puder, faça isso junto com outras pessoas — dez pessoas na mesma meia hora valem mais do que cem espalhadas pelo mês.

Onde

aanatomiadaalma.com.br/lume

Funciona no celular e no computador. Em português, inglês, espanhol e francês, seguindo o idioma do aparelho — sem seletor, porque guardar essa preferência criaria o primeiro dado persistente do projeto. Não instala nada, não pede conta e não carrega nada de fora: os mapas e os ícones vêm dentro da própria página.

Gratuito e sem anúncios. Existe um pedido de doação voluntária escondido na folha “sobre”, atrás do ícone de coração — deliberadamente fora do caminho de quem só quer responder. Nada no uso depende dele.

Existe também uma versão Android, já empacotada e neste momento em teste fechado no Google Play. Concluído o período de teste, ela será liberada gratuitamente na loja, sob exatamente as mesmas regras: sem anúncios, sem cadastro, sem histórico, sem perfis. Não é uma versão “completa” à espera de quem tiver paciência — é o mesmo aplicativo. A página acima não exige instalar nada e já faz tudo.

O que ainda não está bom

Um instrumento que pede confiança deve dizer onde falha.

  • Estados só no Brasil. Fora daqui, a escala “Estado” fica vazia; país e continente funcionam em todo lugar.
  • Os quatro ícones novos nunca foram testados com pessoas. Serenidade, espanto, ternura e saudade dependem do rótulo para serem entendidos. O par a vigiar é espanto/surpresa; depois, saudade/tristeza.
  • Dez cores numa malha de países é muito. Regiões vizinhas com emoções dominantes próximas vão ser difíceis de distinguir a olho.
  • Não há defesa contra repetição. Um script dedicado consegue inflar uma região. Toda defesa séria criaria justamente o identificador que o projeto recusa — e, entre as duas coisas, o projeto escolheu recusar o identificador.

Nenhuma dessas é surpresa: são o preço de decisões tomadas de olhos abertos, e estão anotadas no projeto uma por uma.

O mapa está aberto neste momento — e o momento dele dura trinta minutos: aanatomiadaalma.com.br/lume.

O objeto recebe sua legitimidade da função; a pessoa, não.

Um martelo que não martela perdeu sua razão de ser como martelo, mas uma pessoa desempregada, doente, improdutiva ou esquecida não perdeu sua condição de ser.

Se o valor da pessoa passa a depender dessas condições, isso sugere que a lógica da função foi transferida para a existência.

Quando a existência passa a exigir justificativa, a pessoa começa a ser tratada segundo critérios aplicados aos objetos. O problema não está na função, mas em transformá-la em fundamento. A utilidade pode descrever uma atividade, assim como a identidade, a virtude, a competência ou o sofrimento podem descrever aspectos da experiência humana. Nenhum deles, porém, pode fundamentar o ser.

O mesmo pode ser observado nas redes sociais. Uma pessoa cria um perfil para compartilhar pensamentos, experiências ou criações. Inicialmente, a plataforma serve à expressão. Porém, quando curtidas, seguidores ou aprovação passam a determinar o valor daquilo que é dito — ou até mesmo o direito de dizê-lo — ocorre uma inversão. A reação dos outros, que deveria ser consequência da expressão, transforma-se em condição para ela. Nesse momento, a própria expressão passa a ser influenciada pelas reações que busca produzir, deslocando-se gradualmente daquilo que deseja comunicar para aquilo que espera ser validado.

Quando a aprovação deixa de ser consequência da expressão e passa a determiná-la, a plataforma deixa de servir à pessoa e a pessoa passa a servir à plataforma.

O objeto é legitimado pela função que realiza; a pessoa não, porque o ser precede suas manifestações. Reduzir a pessoa àquilo que ela faz é confundir potencialidade com manifestação temporária e transformar o ser em função.

O mesmo ocorre quando a pessoa é reduzida àquilo que pensa, à identidade que reivindica, ao sofrimento que carrega ou à causa que defende. Em todos esses casos, uma manifestação particular passa a ocupar o lugar daquilo que a torna possível. Quanto mais o ser é confundido com uma representação, mais a crítica à representação será sentida como ofensa ao próprio ser. O resultado é que aquilo que deveria permanecer passível de revisão passa a ser protegido como condição de legitimidade.

As funções pertencem ao que a pessoa faz; as ideias pertencem ao que ela pensa; as identidades pertencem às formas pelas quais ela se descreve. O ser, porém, precede todas essas coisas. Quando qualquer atributo passa a reivindicar o direito de fundamentá-lo, a descrição ocupa o lugar da realidade e a pessoa passa a ser confundida com uma de suas próprias manifestações.

O mesmo vale para os julgamentos que fazemos sobre nós mesmos e sobre os outros. Uma ação pode ser avaliada, uma ideia pode ser criticada e uma conduta pode ser julgada. Mas aquilo que é avaliado não esgota aquilo que a pessoa é. Nenhuma representação é capaz de fundamentar o ser porque nenhuma representação é capaz de contê-lo. Pela mesma razão, nenhuma representação é capaz de esgotar o valor ou o significado de uma pessoa.

A função pertence ao que a pessoa faz; o ser pertence ao que ela é. Confundir os dois é o início da desumanização. O erro não está na função, na identidade ou na ideologia em si, mas em permitir que qualquer uma delas reivindique o lugar do ser. O exílio começa quando a consciência passa a habitar um atributo de si mesma em vez daquilo que torna todos os atributos possíveis.

Nota: Entendo aqui o ser como a própria vida e o conjunto de suas potencialidades. Funções, identidades, pensamentos, virtudes, sofrimentos e realizações são manifestações dessa vida, mas não seu fundamento nem sua totalidade.

Além do Álibi: Ontologia Relacional da Alma e a Restauração da Vida investiga um problema central da experiência humana: como o sujeito se reorganiza quando a continuidade da experiência psíquica é interrompida e o pertencimento passa a ser vivido como condicional. O livro parte da hipótese de que parte significativa do sofrimento psicológico não decorre apenas de eventos traumáticos isolados ou conflitos intrapsíquicos, mas da reorganização funcional produzida quando experiências fundamentais de vínculo, reconhecimento, diferenciação e sustentação não encontram continuidade suficiente. Nessas condições, a ação deixa progressivamente de expressar participação espontânea na vida e passa a funcionar como condição de legitimidade subjetiva.