Crônicas, pensamentos e reflexões.

Escrevi um livro e o disponibilizei gratuitamente no link abaixo. Antes, deixo aqui cinco princípios — suficientes, talvez, para que você decida seguir para a leitura do livro, ou não.

Os 5 Princípios do Álibi Existencial

Este texto parte da hipótese de que o sofrimento humano não é resultado de fraqueza, falta de esforço ou incapacidade. Parte de outro lugar: da ideia de que, em algum momento da história psíquica, o sujeito aprendeu que existir não era suficiente — era preciso justificar a própria existência.

A partir daí, organiza-se uma estrutura. Não apenas comportamentos isolados, mas uma forma de estar no mundo. Uma forma de se relacionar, de escolher, de se repetir.

O que chamo de “álibi existencial” é justamente essa organização invisível: um modo de sustentar a própria permanência no mundo — nos vínculos, nos grupos, nas relações — mesmo que isso implique afastar-se de si.

Os cinco princípios a seguir não são regras normativas, mas descrições de funcionamento. Eles procuram tornar visível o que, na maioria das vezes, age de forma silenciosa.


1. Princípio do Álibi Existencial

Todo sofrimento psíquico persistente se organiza em torno de uma necessidade de justificar a própria existência.

O sujeito não sofre apenas pelo que vive, mas pela pressão constante — muitas vezes implícita — de precisar sustentar um valor, um lugar, uma identidade. A questão não é apenas “o que está acontecendo comigo?”, mas “o que preciso ser para continuar sendo aceito, reconhecido, permitido?”.

O álibi busca recursos de legitimação — muitas vezes irrepreensíveis — como a virtude, o sacrifício ou a posição de quem sempre sustenta o outro.


2. Princípio do Pertencimento Condicional

O sujeito aprende a pertencer ao custo de si mesmo.

Em muitos casos, o pertencimento não é vivido como simples expressão da singularidade, mas pela adaptação a expectativas. Isso não é acidental: para o ser humano, pertencer sempre foi uma questão de sobrevivência — e também de regulação biológica. O sistema nervoso responde ao vínculo como sinal de segurança, e à exclusão como ameaça.

O sujeito, então, aprende cedo que manter o vínculo pode ser mais urgente do que sustentar a própria experiência.

Assim, permanece incluído — na família, no grupo, na relação — mas às custas de um exílio interno. Está incluído formalmente, mas não experimentalmente.


3. Princípio da Repetição Estrutural

O sujeito repete padrões não por falha, mas para sustentar seu álibi.

A repetição não é simples falta de aprendizado. Ela cumpre uma função: manter coerente a estrutura que garante pertencimento e continuidade. Mudar, nesse contexto, não é apenas alterar um comportamento — é colocar em risco o próprio modo de existir que foi construído.


4. Princípio da Ilegitimidade Interna

Quando o sujeito não se sente legítimo, ele substitui existência por desempenho.

A vida passa a ser organizada em termos de prova: provar valor, provar competência, provar merecimento. O sujeito deixa de operar a partir do que é, e passa a funcionar a partir do que precisa demonstrar. A experiência de existir cede lugar à necessidade de justificar.


5. Princípio da Recuperação da Autoria

A mudança só é possível quando o sujeito deixa de sustentar o álibi e assume o risco de existir sem garantia.

Não se trata de eliminar conflitos ou alcançar segurança plena. Trata-se de um deslocamento: agir sem a necessidade constante de validação, suportar a incerteza de não corresponder, e ainda assim sustentar a própria experiência. A ruptura não é grandiosa — começa, na maioria das vezes, em pequenos gestos que já não se justificam.


Esses princípios não oferecem uma solução imediata. Eles oferecem algo anterior: um modo de ver.

E, às vezes, ver com clareza já é o primeiro movimento de mudança.

Porque, a partir desse ponto, a pergunta deixa de ser apenas “como melhorar?”

e passa a ser:

“o que, em mim, ainda está tentando se justificar para poder existir?”

Link para download: https://doi.org/10.5281/zenodo.19324401

Antero, irmão de Eros, foi concebido após Afrodite¹ se queixar a Têmis² de que seu primogênito continuava sempre criança (BULFINCH, 2014). Foi-lhe explicado que tal condição era resultado de sua solidão; a explicação de Têmis confirmou-se com o nascimento de Antero, pois, a partir de então, Eros começou a se desenvolver.

Antero apresentava-se, ora como vingador do amor desdenhado, ora como símbolo do afeto recíproco. A mitologia descreve-o não só como responsável pelo desenvolvimento de Eros, mas também como o agente que avalia o resultado de suas ações: o regulador do amor. A mitologia sugere, ainda que de forma sutil, que o amor não se desenvolve sozinho.

Talvez o que falte à psicanálise não seja apenas compreender Eros e Tânatos, mas reconhecer que o amor só amadurece diante do outro. No entanto, é vital que a posição desse outro jamais seja a bússola, mas o reconhecimento de sua liberdade de escolha. A recompensa como critério favorece uma leitura binária: o que é retribuído seria “bom” e o que é rejeitado, “mau”. Mas o papel de Anteros — como previsto por Têmis — é de alteridade necessária. Sua função não é punir ou aprovar, mas romper a solidão original de Eros, permitindo que ele ganhe contorno e maturidade através da presença e da companhia.

Essa tríade Eros–Antero–Tânatos propõe uma psicanálise relacional: o desenvolvimento do amor psíquico exige uma reciprocidade estrutural, e não apenas contingente. Resgatar Antero corrige o dualismo freudiano ao revelar que o amadurecimento não depende de uma resposta específica do outro, mas do reconhecimento de que o outro existe em sua própria liberdade. Pesquisas clínicas poderiam investigar como a ausência dessa percepção se manifesta em casos de estagnação afetiva ou na paralisia de Tânatos.

Por que Freud pensou o dualismo pulsional?

É compreensível que o dualismo pulsional freudiano parecesse o caminho natural se observarmos o contexto histórico abaixo.

Do ponto de vista científico, Freud bebeu diretamente da física e da fisiologia do século XIX, especialmente da Escola de Helmholtz. O modelo energético da psique — com conceitos como catéxis, descarga e constância — foi claramente inspirado na termodinâmica. Isso mostra que o “dualismo pulsional” era uma tentativa de aplicar leis físicas à mente.

No campo biológico, a leitura de Ernst Haeckel e o determinismo evolutivo reforçaram a ideia de que as pulsões são forças herdadas, inscritas na matéria viva. O impulso de morte (Tânatos), entendido como retorno ao inanimado, encaixava-se nessa visão. Historicamente, a Primeira Guerra Mundial foi decisiva: os traumas de guerra mostraram que o princípio do prazer não explicava a compulsão à repetição, abrindo espaço para Tânatos.

No plano pessoal, as perdas durante a gripe espanhola, como a morte de sua filha Sophie e de seu neto Heinerle, intensificaram o pessimismo de Freud. Conceitualmente, a entropia de Clausius e a conservação de energia ofereceram a linguagem para o “princípio de Nirvana” — a tendência ao zero de excitação. A pulsão de morte é, nesse sentido, uma tradução psíquica da entropia.

Conclusão

Talvez o verdadeiro antídoto contra Tânatos não seja Eros, mas o reconhecimento incondicional de Antero — o outro que nos faz crescer.

Referências
BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: histórias de deuses e heróis. Trad. David Jardim Júnior. Rio de Janeiro: Agir, 2014.
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). In: Obras completas, v. 14. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). In: Obras completas, v. 18. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
SILVA JUNIOR, Aluizio B. da. Life Drive and Death Drive: A Revision of the Freudian Conception. Zenodo, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.5281/zenodo.15268395. Acesso em: 30 dez. 2025.


Artigo original em inglês: https://doi.org/10.5281/zenodo.18064328.

Notas de rodapé
¹ Afrodite, na mitologia grega, é a deusa do amor, beleza, prazer, paixão e fertilidade.
² Têmis é a deusa grega da justiça, lei e ordem divina, atuando como conselheira sábia nos tribunais do Olimpo.

A tal inteligência emocional, celebrada como virtude, geralmente refere-se à contenção e à regulação. Afinal, o objetivo é o ser funcional — aquele que produz sem dar muito trabalho — transformando o córtex pré-frontal em um burocrata, um agente da cultura, ignorando sua função de arquiteto da consciência.

A própria etimologia da palavra “emoção” — emovere, mover para fora — já indica seu papel como força propulsora. E, considerando os aspectos evolutivos, emoções como medo, raiva e desejo foram essenciais para a sobrevivência de nossos ancestrais. Elas nos tornaram rápidos, atentos, capazes de formar vínculos e evitar perigos. Emoções não são disfunções a serem contidas — são expressões legítimas da vida em movimento.

Mas há um porém: a emoção é resposta à realidade percebida, não à realidade objetiva. E é aí que se torna visível o desenvolvimento — limitado pela cultura — do córtex pré-frontal. Explico:

Se sentimos antes de pensar, é porque não vemos o mundo como ele é, mas como fomos moldados a percebê-lo. Na infância, o córtex pré-frontal ainda está em desenvolvimento. Isso torna a percepção fortemente influenciada por experiências afetivas iniciais, como aponta Siegel (2012). Situações de rejeição, crítica ou desamparo são registradas não apenas cognitivamente, mas também corporalmente, como memórias emocionais implícitas (VAN DER KOLK, 2014). Esse processo gera a percepção moldada — uma lente subjetiva que acompanha o indivíduo na vida adulta.

Assim, a emoção é sempre real no corpo, mas pode ser falsa em relação ao mundo. Um e-mail ríspido pode ativar a mesma sensação de abandono vivida na infância; uma crítica pode disparar memórias de rejeição, mesmo sem ameaça atual.

Essa dinâmica explica por que estratégias de inteligência emocional muitas vezes fracassam: não porque a pessoa é fraca, mas porque a percepção moldada já disparou a resposta emocional antes da intervenção racional (DAMÁSIO, 2010).

Talvez o uso mais natural do termo “inteligência emocional” devesse referir-se à expansão da percepção — integrando a emoção como linguagem da consciência, como arquiteto de sentido, enfim.

Não precisamos de mais contenção emocional — precisamos de mais consciência emocional. Que o córtex pré-frontal deixe de ser um funcionário da cultura e assuma seu papel como legislador da alma.