Crônicas, pensamentos e reflexões.

O objeto recebe sua legitimidade da função; a pessoa, não.

Um martelo que não martela perdeu sua razão de ser como martelo, mas uma pessoa desempregada, doente, improdutiva ou esquecida não perdeu sua condição de ser.

Se o valor da pessoa passa a depender dessas condições, isso sugere que a lógica da função foi transferida para a existência.

Quando a existência passa a exigir justificativa, a pessoa começa a ser tratada segundo critérios aplicados aos objetos. O problema não está na função, mas em transformá-la em fundamento. A utilidade pode descrever uma atividade, assim como a identidade, a virtude, a competência ou o sofrimento podem descrever aspectos da experiência humana. Nenhum deles, porém, pode fundamentar o ser.

O mesmo pode ser observado nas redes sociais. Uma pessoa cria um perfil para compartilhar pensamentos, experiências ou criações. Inicialmente, a plataforma serve à expressão. Porém, quando curtidas, seguidores ou aprovação passam a determinar o valor daquilo que é dito — ou até mesmo o direito de dizê-lo — ocorre uma inversão. A reação dos outros, que deveria ser consequência da expressão, transforma-se em condição para ela. Nesse momento, a própria expressão passa a ser influenciada pelas reações que busca produzir, deslocando-se gradualmente daquilo que deseja comunicar para aquilo que espera ser validado.

Quando a aprovação deixa de ser consequência da expressão e passa a determiná-la, a plataforma deixa de servir à pessoa e a pessoa passa a servir à plataforma.

O objeto é legitimado pela função que realiza; a pessoa não, porque o ser precede suas manifestações. Reduzir a pessoa àquilo que ela faz é confundir potencialidade com manifestação temporária e transformar o ser em função.

O mesmo ocorre quando a pessoa é reduzida àquilo que pensa, à identidade que reivindica, ao sofrimento que carrega ou à causa que defende. Em todos esses casos, uma manifestação particular passa a ocupar o lugar daquilo que a torna possível. Quanto mais o ser é confundido com uma representação, mais a crítica à representação será sentida como ofensa ao próprio ser. O resultado é que aquilo que deveria permanecer passível de revisão passa a ser protegido como condição de legitimidade.

As funções pertencem ao que a pessoa faz; as ideias pertencem ao que ela pensa; as identidades pertencem às formas pelas quais ela se descreve. O ser, porém, precede todas essas coisas. Quando qualquer atributo passa a reivindicar o direito de fundamentá-lo, a descrição ocupa o lugar da realidade e a pessoa passa a ser confundida com uma de suas próprias manifestações.

O mesmo vale para os julgamentos que fazemos sobre nós mesmos e sobre os outros. Uma ação pode ser avaliada, uma ideia pode ser criticada e uma conduta pode ser julgada. Mas aquilo que é avaliado não esgota aquilo que a pessoa é. Nenhuma representação é capaz de fundamentar o ser porque nenhuma representação é capaz de contê-lo. Pela mesma razão, nenhuma representação é capaz de esgotar o valor ou o significado de uma pessoa.

A função pertence ao que a pessoa faz; o ser pertence ao que ela é. Confundir os dois é o início da desumanização. O erro não está na função, na identidade ou na ideologia em si, mas em permitir que qualquer uma delas reivindique o lugar do ser. O exílio começa quando a consciência passa a habitar um atributo de si mesma em vez daquilo que torna todos os atributos possíveis.

Nota: Entendo aqui o ser como a própria vida e o conjunto de suas potencialidades. Funções, identidades, pensamentos, virtudes, sofrimentos e realizações são manifestações dessa vida, mas não seu fundamento nem sua totalidade.

Além do Álibi: Ontologia Relacional da Alma e a Restauração da Vida investiga um problema central da experiência humana: como o sujeito se reorganiza quando a continuidade da experiência psíquica é interrompida e o pertencimento passa a ser vivido como condicional. O livro parte da hipótese de que parte significativa do sofrimento psicológico não decorre apenas de eventos traumáticos isolados ou conflitos intrapsíquicos, mas da reorganização funcional produzida quando experiências fundamentais de vínculo, reconhecimento, diferenciação e sustentação não encontram continuidade suficiente. Nessas condições, a ação deixa progressivamente de expressar participação espontânea na vida e passa a funcionar como condição de legitimidade subjetiva.

Escrevi um livro e o disponibilizei gratuitamente no link abaixo. Antes, deixo aqui cinco princípios — suficientes, talvez, para que você decida seguir para a leitura do livro, ou não.

Os 5 Princípios do Álibi Existencial

Este texto parte da hipótese de que o sofrimento humano não é resultado de fraqueza, falta de esforço ou incapacidade. Parte de outro lugar: da ideia de que, em algum momento da história psíquica, o sujeito aprendeu que existir não era suficiente — era preciso justificar a própria existência.

A partir daí, organiza-se uma estrutura. Não apenas comportamentos isolados, mas uma forma de estar no mundo. Uma forma de se relacionar, de escolher, de se repetir.

O que chamo de “álibi existencial” é justamente essa organização invisível: um modo de sustentar a própria permanência no mundo — nos vínculos, nos grupos, nas relações — mesmo que isso implique afastar-se de si.

Os cinco princípios a seguir não são regras normativas, mas descrições de funcionamento. Eles procuram tornar visível o que, na maioria das vezes, age de forma silenciosa.


1. Princípio do Álibi Existencial

Todo sofrimento psíquico persistente se organiza em torno de uma necessidade de justificar a própria existência.

O sujeito não sofre apenas pelo que vive, mas pela pressão constante — muitas vezes implícita — de precisar sustentar um valor, um lugar, uma identidade. A questão não é apenas “o que está acontecendo comigo?”, mas “o que preciso ser para continuar sendo aceito, reconhecido, permitido?”.

O álibi busca recursos de legitimação — muitas vezes irrepreensíveis — como a virtude, o sacrifício ou a posição de quem sempre sustenta o outro.


2. Princípio do Pertencimento Condicional

O sujeito aprende a pertencer ao custo de si mesmo.

Em muitos casos, o pertencimento não é vivido como simples expressão da singularidade, mas pela adaptação a expectativas. Isso não é acidental: para o ser humano, pertencer sempre foi uma questão de sobrevivência — e também de regulação biológica. O sistema nervoso responde ao vínculo como sinal de segurança, e à exclusão como ameaça.

O sujeito, então, aprende cedo que manter o vínculo pode ser mais urgente do que sustentar a própria experiência.

Assim, permanece incluído — na família, no grupo, na relação — mas às custas de um exílio interno. Está incluído formalmente, mas não experimentalmente.


3. Princípio da Repetição Estrutural

O sujeito repete padrões não por falha, mas para sustentar seu álibi.

A repetição não é simples falta de aprendizado. Ela cumpre uma função: manter coerente a estrutura que garante pertencimento e continuidade. Mudar, nesse contexto, não é apenas alterar um comportamento — é colocar em risco o próprio modo de existir que foi construído.


4. Princípio da Ilegitimidade Interna

Quando o sujeito não se sente legítimo, ele substitui existência por desempenho.

A vida passa a ser organizada em termos de prova: provar valor, provar competência, provar merecimento. O sujeito deixa de operar a partir do que é, e passa a funcionar a partir do que precisa demonstrar. A experiência de existir cede lugar à necessidade de justificar.


5. Princípio da Recuperação da Autoria

A mudança só é possível quando o sujeito deixa de sustentar o álibi e assume o risco de existir sem garantia.

Não se trata de eliminar conflitos ou alcançar segurança plena. Trata-se de um deslocamento: agir sem a necessidade constante de validação, suportar a incerteza de não corresponder, e ainda assim sustentar a própria experiência. A ruptura não é grandiosa — começa, na maioria das vezes, em pequenos gestos que já não se justificam.


Esses princípios não oferecem uma solução imediata. Eles oferecem algo anterior: um modo de ver.

E, às vezes, ver com clareza já é o primeiro movimento de mudança.

Porque, a partir desse ponto, a pergunta deixa de ser apenas “como melhorar?”

e passa a ser:

“o que, em mim, ainda está tentando se justificar para poder existir?”

Link para download: https://doi.org/10.5281/zenodo.19596158