Crônicas, pensamentos e reflexões.

Arquivo para junho, 2026

Sobre o Exílio do Ser

O objeto recebe sua legitimidade da função; a pessoa, não.

Um martelo que não martela perdeu sua razão de ser como martelo, mas uma pessoa desempregada, doente, improdutiva ou esquecida não perdeu sua condição de ser.

Se o valor da pessoa passa a depender dessas condições, isso sugere que a lógica da função foi transferida para a existência.

Quando a existência passa a exigir justificativa, a pessoa começa a ser tratada segundo critérios aplicados aos objetos. O problema não está na função, mas em transformá-la em fundamento. A utilidade pode descrever uma atividade, assim como a identidade, a virtude, a competência ou o sofrimento podem descrever aspectos da experiência humana. Nenhum deles, porém, pode fundamentar o ser.

O mesmo pode ser observado nas redes sociais. Uma pessoa cria um perfil para compartilhar pensamentos, experiências ou criações. Inicialmente, a plataforma serve à expressão. Porém, quando curtidas, seguidores ou aprovação passam a determinar o valor daquilo que é dito — ou até mesmo o direito de dizê-lo — ocorre uma inversão. A reação dos outros, que deveria ser consequência da expressão, transforma-se em condição para ela. Nesse momento, a própria expressão passa a ser influenciada pelas reações que busca produzir, deslocando-se gradualmente daquilo que deseja comunicar para aquilo que espera ser validado.

Quando a aprovação deixa de ser consequência da expressão e passa a determiná-la, a plataforma deixa de servir à pessoa e a pessoa passa a servir à plataforma.

O objeto é legitimado pela função que realiza; a pessoa não, porque o ser precede suas manifestações. Reduzir a pessoa àquilo que ela faz é confundir potencialidade com manifestação temporária e transformar o ser em função.

O mesmo ocorre quando a pessoa é reduzida àquilo que pensa, à identidade que reivindica, ao sofrimento que carrega ou à causa que defende. Em todos esses casos, uma manifestação particular passa a ocupar o lugar daquilo que a torna possível. Quanto mais o ser é confundido com uma representação, mais a crítica à representação será sentida como ofensa ao próprio ser. O resultado é que aquilo que deveria permanecer passível de revisão passa a ser protegido como condição de legitimidade.

As funções pertencem ao que a pessoa faz; as ideias pertencem ao que ela pensa; as identidades pertencem às formas pelas quais ela se descreve. O ser, porém, precede todas essas coisas. Quando qualquer atributo passa a reivindicar o direito de fundamentá-lo, a descrição ocupa o lugar da realidade e a pessoa passa a ser confundida com uma de suas próprias manifestações.

O mesmo vale para os julgamentos que fazemos sobre nós mesmos e sobre os outros. Uma ação pode ser avaliada, uma ideia pode ser criticada e uma conduta pode ser julgada. Mas aquilo que é avaliado não esgota aquilo que a pessoa é. Nenhuma representação é capaz de fundamentar o ser porque nenhuma representação é capaz de contê-lo. Pela mesma razão, nenhuma representação é capaz de esgotar o valor ou o significado de uma pessoa.

A função pertence ao que a pessoa faz; o ser pertence ao que ela é. Confundir os dois é o início da desumanização. O erro não está na função, na identidade ou na ideologia em si, mas em permitir que qualquer uma delas reivindique o lugar do ser. O exílio começa quando a consciência passa a habitar um atributo de si mesma em vez daquilo que torna todos os atributos possíveis.

Nota: Entendo aqui o ser como a própria vida e o conjunto de suas potencialidades. Funções, identidades, pensamentos, virtudes, sofrimentos e realizações são manifestações dessa vida, mas não seu fundamento nem sua totalidade.