Crônicas, pensamentos e reflexões.

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Amor-próprio

A psique, quando iluminada por Eros sem saber disso, tende a acreditar na própria luminescência, o que é, naturalmente, um engano. Neste ponto, a vaidade pode ser confundida com amor-próprio e privá-la dos benefícios do autoamor, enganando a si mesma e aos outros, como quem observa a lua acreditando que ela seja portadora da própria luz, impedindo a realização de Eros.

Jung, embora usando outros termos, alertou em sua obra Aion que o ego tenta usurpar a herança do self, para a qual não está qualificado de forma alguma. Já o autoamor da psique, quando consciente da presença de Eros, é integrativo e essencial para a saúde mental; pré-requisito para a consciência da dinâmica entre Eros e psique; o eu e o outro, as sombras na parede da caverna, o aparelho emocional e, principalmente, o elemento fundamental como o ar: o amor que viabiliza toda esta dinâmica, como na individuação – embora Jung não tenha mencionado explicitamente o amor como elemento fundamental da integração.

O autoamor, quando consciente da origem de sua luz, tende naturalmente a depositar amor no aparelho emocional para ser compartilhado. Não encontra fim em si mesmo, pois a realização de Eros se consiste na multiplicação e inclusão através de conexões genuínas, regulando a psique e oferecendo aos outros a mesma possibilidade. O autoamor, quando ignora sua natureza, aliena-se, provoca ciúme por acreditar que é provedor da própria luz e exige devoção. Nesse ponto, já deixou de ser fluxo natural de Eros e não há mais depósito no aparelho emocional.

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Referências bibliográficas
JUNG, Carl Gustav. Aion: Estudos sobre o simbolismo do Si-mesmo. Tradução de Sérgio C. B. de Moraes. Rio de Janeiro: Vozes, 2001.

JUNG, C. G.; VON FRANZ, M.-L.; HENDERSON, J. L.; JACOBI, J.; JAFÉ, A. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1977.

Equilíbrio

Se pensarmos sobre as emoções primárias: felicidade, medo, raiva e tristeza, notamos uma evidente desvantagem de três para um na busca pelo equilíbrio emocional, pois a inclinação natural é o desequilíbrio. Não havendo maneira de equilibrar as emoções primárias de forma quantitativa, a alternativa é regular a intensidade delas, podendo assim obter, finalmente, o equilíbrio, e essa tarefa e executada pelo aparelho psíquico.

Considerando Eros como a pulsão principal, a felicidade seria a expressão de sua realização, enquanto as demais seriam reações manifestadas pela frustração. Tendemos naturalmente à frustração pois, se por um lado temos equivalência entre felicidade e tristeza, mas não dispomos de coragem e amor como emoções primárias opositoras ao medo e a raiva.

Entretanto, podemos através das conexões genuínas de afeto e cuidado, obter amor como oposição equivalente à raiva.

Quanto ao medo, quando compreendido em sua essência, apresenta-se como uma emoção neutra, pois carrega tanto elementos positivos quanto negativos; sendo instrumento de sobrevivência ou paralisação e, conexões genuínas auxiliam nessa compreensão.

Portanto, sob esta perspectiva, as conexões genuínas são necessárias para o equilíbrio emocional.

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A responsabilidade é de todos

Ao verificar que a natureza dos problemas emocionais está concentrada nas relações, me parece coerente acreditar que a cura, também está nelas. Por mais que tenhamos capacidades psíquicas para regular através de qualquer mecanismo, se a proto-emocionalidade se mantiver problemática, exigirá um trabalho constante e, por fim, exaustivo, na tarefa de reequilibrar a psique.

A ideia de um aparelho emocional, inato e compartilhado, como área que recebe, organiza e promove a troca de afeto, coloca a razão como tarefa do aparelho psíquico, incumbindo-o de buscar relações legítimas para a homeostase emocional. A ideia do aparelho psíquico, por muitas vezes tendo como função principal a de reparador, poderia ser substituída pela função de avaliador, mediador e guia que busca conexões saudáveis e legítimas. A ideia de que somos totalmente responsáveis pela nossa saúde emocional (não só essa) deveria referir-se exclusivamente à busca de qualidade nas relações, e isso significa, também, que parte da psique que é compartilhada, pressupõe responsabilidade mútua no que se refere à saúde dessa.

Quando tratamos temas como o cuidado e as conexões legítimas de maneira abstrata, eles acabam sendo entendidos de maneira superficial, quase como conceitos místicos ou filosóficos, que muitas vezes não atendem as exigências práticas do contexto da saúde mental.
Este estudo, através de um modelo tangível, buscou transportar esses conceitos abstratos para o campo da análise pragmática.

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