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Da Emoção ao Significado: A Ressignificação de Eventos

Sequência de Processamento do Evento Emocional (SPEE): um modelo complementar à compreensão psicodinâmica e cognitiva

DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.15302878

Esta semana, durante uma sessão, observei na prática uma sequência que havia percebido e mencionado anteriormente. Uma cliente se sentia incomodada com a reação desproporcional que teve diante de um evento. O exemplo abaixo não é o da sessão, mas ilustra bem como esse processo pode acontecer.

Sequência de Ressignificação do Evento

Imagine a seguinte sequência:
• Ocorre um evento importante, que é interpretado e significado.
• Interpretação subjetiva (significado).
• Resposta emocional.
• Fluxo(s) interrompido(s).
• Solução desejada (compensação simbólica diante da impossibilidade de solução no
momento do evento).
• Busca pela solução guiada pela emoção original, que se ativa não por fatos objetivos, mas
pelo significado emocional atribuído ao evento.

Exemplo: Rejeição

  1. Ocorre um evento importante: Uma pessoa faz uma declaração de amor e recebe uma resposta negativa. Ela não é capaz de lidar com a situação no momento.
  2. Interpretação subjetiva (significado): A experiência é interpretada de forma negativa, podendo gerar ou reforçar crenças como “Nunca sou amado” ou “Sempre sou rejeitado”.
  3. Resposta emocional: Conforme a interpretação, a pessoa pode sentir tristeza, frustração, raiva ou até desamparo.
  4. Fluxo(s) interrompido(s): Sem compreender a emoção de maneira saudável, pode haver a interrupção do fluxo de Conexões Genuínas, levando a evitar novas relações para fugir de futuras rejeições.
  5. Solução desejada: Busca por aceitação ou validação.
  6. Busca pela solução (executada fora do contexto):
    A pessoa pode tentar compensar a interrupção emocional, guiada pela emoção reativa que surgiu da interpretação do evento. Essa busca pode se manifestar de várias formas, baseadas em interpretações de outros eventos semelhantes, mesmo que os fatos não sejam idênticos.
    Ou seja, a pessoa pode, sem perceber, repetir padrões de comportamento anteriores, tentando resolver na situação atual experiências passadas, mesmo que não haja relação direta entre os eventos, mas sim no significado emocional¹.

Conclusão

Encontrar a origem do significado emocional e tratá-la ajuda a perceber a desproporcionalidade da reação atribuída a outros eventos.

¹ Significado Emocional:
É a carga subjetiva de sentido atribuída a um evento, formada pela interação entre a interpretação pessoal e a emoção associada.
O significado emocional não depende apenas dos fatos objetivos, mas é moldado pela história afetiva da pessoa.

A onda

Um vento frio, um incômodo, uma sensação.

Percepções que levam à inevitável identificação com o “eu” sensível. A história subjetiva passa a ser escrita e, ainda que o eu se modifique, ainda há a segurança do mesmo eu que existe.

Uma onda do oceano passa a ser uma onda no oceano. Além de uma sutileza linguística: uma separação. Um momento de expressão única de um Todo, uma onda que se enxergou. Teve medo.

A brevidade inevitável fez a onda buscar algo além de si mesma, algo capaz de transcendê-la além da forma. Tal busca, porém, se deu sob a ideia da onda no oceano, e elevar-se parecia o caminho certo. Ir além, enfim.

Assim, a onda se distanciou.

Não havia um topo a escalar, mas uma sutileza a perceber. A jornada era, na verdade, o caminho de volta para casa.

A força da onda diminuiu, foi perdendo sua forma e percebendo a realidade de que, o tempo todo, era uma manifestação do oceano.

Era oceano.

Um sonho, um olhar atento e algumas possíveis descobertas.

À medida que me debruçava sobre meus pensamentos, deixando de lado o medo de parecer tolo -o que exigiu um esforço enorme -, pois, que tipo de maluco dedicaria tanto tempo e esforço para tentar observar os aspectos da alma, enquanto os boletos continuavam a bater à porta?

A própria jornada, porém, me revelou dois aspectos importantes: A realização da alma e transcendência. Por outro lado, negligenciei a sobrevivência e integração com o meio, o autoamor consciente parecia secundário, e quanto à libido… O que é isso? Bem, ela ainda tem o poder da criatividade.

Por muitas vezes senti a angústia, pois, o que estava propondo não ressoava em lugar algum e acabei por sentir o vácuo existencial (conceito da logoterapia que se refere à frustração da vontade de sentido), mas apesar disso, me recusei a parar; afinal, a vontade de sentido, eventualmente frustrada, ainda era melhor que a ausência de qualquer vontade de sentido.

Para minha sorte, as conexões genuínas me sustentaram e ainda sustentam. Honestamente, não sei o que teria feito sem elas, porque o suporte emocional, além de me sustentar, comprovou a importância do próprio aspecto.

Muitas surpresas surgiram, mas a necessidade de me manter cético fizeram eu passar por momentos do tipo: “nem vendo eu acredito”, como aconteceu com a relação entre aspectos, cores e frequências.

A surpresa mais recente se deu quando um amigo psicólogo me falava sobre a logoterapia. A abordagem chamou minha atenção imediatamente, assim, fui pesquisar artigos, livros e assisti a uma entrevista com o próprio Viktor Frankl (que eu recomento) e, uma ficha caiu.

Não pude deixar de notar a correspondência entre a logoterapia e dois aspectos de Eros: realização da alma e transcendência, então, a busca por correspondência entre outras abordagens e os aspectos de Eros não careceu de esforço algum, pois já estava lá, mesmo que implícita. A psicanálise freudiana com sua libido, a TCC com a integração com o meio e autoamor consciente, a psicologia analítica com a transcendência e individuação…

 O fato de um pensamento de abril de 2013 questionando a origem do mal, passando por vários caminhos até chegar à pesquisa da psicóloga social Naomi Eisenberger sobre as dores sociais, que são sentidas no Córtex Cingulado Anterior (assim como a dor física) e, a partir deste ponto buscar correspondência emocional equivalente entre os mecanismos que fazem o cérebro “saber onde dói” e identificar a “parte” da alma que tem problemas, foi uma busca que compensou qualquer vácuo existencial.

Mas, se meu trabalho não encontrar utilidade, porém, ainda será incompleto. De qualquer forma, me alegra saber que talvez, aqui se encontre uma possibilidade de direcionamento para a abordagem mais adequada para tratar das dores da alma.