Crônicas, pensamentos e reflexões.

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Ah, o viés!

Depois de enfrentar duras críticas, Antônio Viés encontrou-se com seus amigos e, após contar-lhes o que lhe havia acontecido, por unanimidade, estes imediatamente compartilharam da mesma indignação. “Como isso é possível?” – Disse Márcio Contexto que continuou a argumentar: “Seus atos são totalmente justificáveis dentro das possibilidades disponíveis!” – completou com veemência. Jorge Relativista, porém, foi além: “Ora! De forma alguma você errou, afinal, sua causa é nobre!” – afirmou com segurança.

 Antônio Viés estava confortável agora, pois, ainda que seus atos, quando praticados por outros poderiam ser condenáveis, seu contexto e a crença na nobreza de seus fins o isentavam de qualquer culpa.   

Pedro Razão ouvia a conversa sozinho na mesa ao lado. Estava ficando tarde…

Sobre a verdade

Então, o cego passou a vida toda esperando uma verdade filosófica que mudasse sua história para sempre enquanto cada verdade dita, sentida, manifestada por qualquer pessoa, em qualquer momento, era tradada como se fosse algo diferente daquilo que procurava.

Sobre os talentos.

 

O vento trouxe uma folha e a colocou sobre minha cama. Eu a peguei, estava secando, não era mais árvore.

Perguntei para a folha por que ela se soltara da árvore e ela me respondeu: – O vento me convidou, disse que me levaria a lugares que eu jamais poderia ver sendo árvore. Perguntei se o vento havia lhe advertido que ela morreria e ela me disse que não. Vi que estava triste.

Tentei consolá-la e lhe contei que ela ainda poderia voltar para a terra e se tornar solo. Ela se recusou me dizendo que outrora fora árvore e via as coisas de cima, era inaceitável que fosse solo e que preferia morrer como folha, secar totalmente, virar pó e se espalhar com o vento.

Lhe contei que mesmo virando pó, ela inevitavelmente voltaria para terra e seria solo. Ela sorriu com melancolia, percebeu que talvez nunca mais pudesse ser folha. Ser árvore.

Me enchi de compaixão e lhe disse que, mesmo que não fosse mais árvore e logo, nem folha, ela ainda seria parte do jardim. Não como a parte que ela não se contentou, mas ainda seria parte.

Ela me fitou seriamente e me perguntou: – Se eu não tivesse me recusado a ser árvore, não teria me tornado folha, porém,  o que eu poderia ser depois de árvore?

Sendo árvore daria frutos, seus frutos alimentariam as criaturas e você, como fruto, viveria nelas, seria parte delas. -Respondi.

A folha chorou, então eu a comi. Era amarga.