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A anatomia da alma (2)

Na ausência de nociceptores¹ emocionais (pelo menos, é o que parece), a tarefa de encontrar a anatomia da alma se torna mais difícil; afinal, a dor emocional é uma interpretação/resposta subjetiva e, até agora, há muito mais perguntas que respostas, pois, ainda que possamos dizer de onde vem, teremos que responder a questões como: o que feriu? É uma inflamação? Um machucado? Talvez encontrar uma analogia física possa nos ajudar a, sequer, sonhar com um tratamento mais eficiente para as dores da alma.

Desde as culturas mesopotâmicas até as orientais, sempre houve maneiras de tratar as dores da alma; embora cada uma a seu modo, elas tinham em comum a busca pela harmonia. No Taoísmo e Confucionismo, por exemplo, as dores eram observadas como desequilíbrio no qi (energia vital) e utilizavam acupuntura, tai chi e fitoterapia para restaurar a harmonia, enquanto nas culturas Mesopotâmicas e Egípcias, eram atribuídas a influências dos espíritos ou ira dos deuses, carecendo de rituais para apaziguar essas forças e restaurar o equilíbrio. Nas tradições Judaico-Cristãs, as dores da alma são interpretadas como desconexão com Deus e a confissão e oração são praticados para reestabelecer a conexão. De qualquer maneira, o que não é visível pode sofrer interpretação de acordo com a cultura ou época, diferente de topar com o dedão na quina de uma mesa, onde a dor, causa e lugar serão identificados imediatamente, sem influência cultural ou cronológica.

A grande questão a ser respondida é: se a percepção de uma dor física é resultado de várias conexões entre o ponto de origem e as regiões do cérebro que associadas a dor (Córtex cingulado anterior, amígdala e hipocampo), qual seria o ponto de origem de uma dor social, sabendo que é processada na mesma região do cérebro?

Importante também, é ressaltar que uma dor física deixa de ser sentida quando perde o estímulo. Uma dor da alma, porém, pode se perpetuar tendo pensamentos ou memórias como estímulo e se tornar uma inflamação emocional.

Bem, ainda que de maneira simplista, podemos afirmar que a ausência de estímulos pode contribuir para uma cicatrização emocional; que uma ferida na alma pode origem em um evento de ruptura (luto ou rejeição); que uma infecção venha a ser resultado de pensamentos intrusivos ou interpretações negativas com potencial para “infectar” a ferida, causando ainda mais sofrimento.

Será? Honestamente, não sei. Mas é empolgante trilhar este caminho.

¹ Neurônios sensoriais que detectam danos teciduais e transmitem informações para o sistema nervoso central, causando a percepção de dor.

Uma alegria

Foi um prazer participar do projeto da editora Vila Rica: Antologia de inverno. 😀

Além dos aplausos

O princípio da utilidade

“Não é preciso muito para matar uma pessoa: basta convencê-la de que ninguém precisa do que ela faz”

Fiódor Dostoiévski foi certeiro nesta afirmação. Abordou, no século dezenove, algo que foi proposto formalmente em 1981 por Richard M. Ryan e Edward L. Dec, como a Teoria da Autodeterminação. Para simplificar, basta sabermos que ela sugere que os seres humanos possuem três necessidades psicológicas básicas, sendo elas: autonomia, competência e relacionamento. Dostoiévski tocou de forma genial no que se refere a competência e relacionamento.

Note que isso vai além de aprovação ou reconhecimento superficial, pois toca, diretamente, na relação do ser humano com um propósito, onde sentimos que podemos contribuir com algo que vai além de nós – o que, imediatamente, acaba com qualquer possibilidade de associação com a vaidade -; ainda que, por falta de conhecimento, possam ser confundidos.

A frase de Dostoiévski toca diretamente em conceitos que tenho abordado ou sugerido ao longo dos anos, como orquestra natural e consciência coletiva e, a questão que fica é: Será que estaríamos redefinindo o necessário para caber nas nossas expectativas, desejos ou interesses? Se sim, que percebamos enquanto há tempo, pois se fosse negociável, não seria necessário.