Crônicas, pensamentos e reflexões.

Antero, irmão de Eros, foi concebido após Afrodite¹ se queixar a Têmis² de que seu primogênito continuava sempre criança (BULFINCH, 2014). Foi-lhe explicado que tal condição era resultado de sua solidão; a explicação de Têmis confirmou-se com o nascimento de Antero, pois, a partir de então, Eros começou a se desenvolver.

Antero apresentava-se, ora como vingador do amor desdenhado, ora como símbolo do afeto recíproco. A mitologia descreve-o não só como responsável pelo desenvolvimento de Eros, mas também como o agente que avalia o resultado de suas ações: o regulador do amor. A mitologia sugere, ainda que de forma sutil, que o amor não se desenvolve sozinho.

Talvez o que falte à psicanálise não seja apenas compreender Eros e Tânatos, mas reconhecer que o amor só amadurece diante do outro. No entanto, é vital que a posição desse outro jamais seja a bússola, mas o reconhecimento de sua liberdade de escolha. A recompensa como critério favorece uma leitura binária: o que é retribuído seria “bom” e o que é rejeitado, “mau”. Mas o papel de Anteros — como previsto por Têmis — é de alteridade necessária. Sua função não é punir ou aprovar, mas romper a solidão original de Eros, permitindo que ele ganhe contorno e maturidade através da presença e da companhia.

Essa tríade Eros–Antero–Tânatos propõe uma psicanálise relacional: o desenvolvimento do amor psíquico exige uma reciprocidade estrutural, e não apenas contingente. Resgatar Antero corrige o dualismo freudiano ao revelar que o amadurecimento não depende de uma resposta específica do outro, mas do reconhecimento de que o outro existe em sua própria liberdade. Pesquisas clínicas poderiam investigar como a ausência dessa percepção se manifesta em casos de estagnação afetiva ou na paralisia de Tânatos.

Por que Freud pensou o dualismo pulsional?

É compreensível que o dualismo pulsional freudiano parecesse o caminho natural se observarmos o contexto histórico abaixo.

Do ponto de vista científico, Freud bebeu diretamente da física e da fisiologia do século XIX, especialmente da Escola de Helmholtz. O modelo energético da psique — com conceitos como catéxis, descarga e constância — foi claramente inspirado na termodinâmica. Isso mostra que o “dualismo pulsional” era uma tentativa de aplicar leis físicas à mente.

No campo biológico, a leitura de Ernst Haeckel e o determinismo evolutivo reforçaram a ideia de que as pulsões são forças herdadas, inscritas na matéria viva. O impulso de morte (Tânatos), entendido como retorno ao inanimado, encaixava-se nessa visão. Historicamente, a Primeira Guerra Mundial foi decisiva: os traumas de guerra mostraram que o princípio do prazer não explicava a compulsão à repetição, abrindo espaço para Tânatos.

No plano pessoal, as perdas durante a gripe espanhola, como a morte de sua filha Sophie e de seu neto Heinerle, intensificaram o pessimismo de Freud. Conceitualmente, a entropia de Clausius e a conservação de energia ofereceram a linguagem para o “princípio de Nirvana” — a tendência ao zero de excitação. A pulsão de morte é, nesse sentido, uma tradução psíquica da entropia.

Conclusão

Talvez o verdadeiro antídoto contra Tânatos não seja Eros, mas o reconhecimento incondicional de Antero — o outro que nos faz crescer.

Referências
BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: histórias de deuses e heróis. Trad. David Jardim Júnior. Rio de Janeiro: Agir, 2014.
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). In: Obras completas, v. 14. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). In: Obras completas, v. 18. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
SILVA JUNIOR, Aluizio B. da. Life Drive and Death Drive: A Revision of the Freudian Conception. Zenodo, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.5281/zenodo.15268395. Acesso em: 30 dez. 2025.


Artigo original em inglês: https://doi.org/10.5281/zenodo.18064328.

Notas de rodapé
¹ Afrodite, na mitologia grega, é a deusa do amor, beleza, prazer, paixão e fertilidade.
² Têmis é a deusa grega da justiça, lei e ordem divina, atuando como conselheira sábia nos tribunais do Olimpo.

Comentários em: "Para além do dualismo pulsional" (2)

  1. Avatar de Eterea

    Happy 2026 🥂

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