Crônicas, pensamentos e reflexões.

Tenho notado que a tal criança interior, da maneira como é descrita por aí, parece uma figura infantil, carente de afeto e pedindo para ser abraçada e acolhida. As redes sociais ajudaram bastante a espalhar essa imagem, e a ideia de cuidar de um ser frágil que habita nosso íntimo desperta, quase sempre, o nosso lado protetor e amoroso.

Mas a observação clínica me trouxe uma visão bem diferente. A tal criança, na verdade, são fragmentos — partes que não se desenvolveram completamente, seja por ausência, seja por supressão. Explico:

As partes não desenvolvidas criam lacunas. Mas não no sentido de vazio, e sim de desequilíbrio. Imagine alguém que desenvolveu várias de suas capacidades, mas teve, por exemplo, a autonomia totalmente suprida pelos pais. Agora imagine outro caso: uma pessoa que, desde muito cedo, teve sua fragilidade negada e, para sobreviver, a criança adotou uma entidade psíquica — diferente da máscara ou persona, que têm funções adaptativas —, uma estrutura rígida, do tipo “valente e inabalável”.

Nos dois casos, capacidades emocionais fundamentais foram impedidas de crescer junto com as demais. E essas lacunas — que mantêm certos aspectos do self em estado subdesenvolvido — foram preenchidas, seja por entidades psíquicas idealizadas, seja por figuras externas que ocuparam aquele lugar.

O resultado? Um estado infantil disfarçado de maturidade, que funciona… até que algo foge do controle. E aí, no meio da vida adulta, a criança (ou adolescente) aparece, pega o microfone e dá um show.

Então, para quem tinha uma ideia romântica sobre a criança interior… lamento.
Mas há uma boa notícia: compreender essas diferenças pode tornar o caminho do desenvolvimento mais direto. Identificar o que se deu por falta ou por supressão ajuda a retomar o crescimento das partes que ficaram para trás — sem fantasia, mas com mais clareza e liberdade.

Leia o artigo completo: Anatomia da Criança Interior (inglês)

Comentários em: "A tal criança interior" (4)

  1. Avatar de Carolina e Catarina

    Eu realmente encontrei muita coisa se referindo à criança interior como sendo frágil e precisando de acolhimento. Para mim, leiga nesta área, ficou bem compreensível e me ajudou a entender a necessidade de ” trazer para perto” sentimentos dolorosos de outros tempos para “digerí-los”.
    É muito interessante sua abordagem. Entendi que existem o que você chamou de “lacunas”. Gratidão!

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  2. Avatar de Swamigalkodi Astrology

    Ethereal perspective

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