Após publicar a Sequência de Processamento do Evento Emocional (SPEE), notei que não havia dado toda a ênfase necessária aos fatores biológicos característicos da adolescência que, talvez, possam minimizar o protagonismo da infância no que se refere à formação de padrões de comportamento.
Há muito o que se considerar na adolescência, pois, assim como o corpo, o cérebro também passa por mudanças importantes:
A maturação precoce da amígdala: (responsável pelas respostas emocionais), em contraponto com o desenvolvimento tardio do córtex pré-frontal, cria um descompasso biológico: a capacidade de sentir emoções é muito maior do que a de regulá-las e compreendê-las.
Poda sináptica: o cérebro elimina conexões neurais pouco utilizadas, reforçando circuitos mais ativos — ou seja, aquilo que é vivido com frequência, intensidade ou repetição tende a permanecer.
Tempestade hormonal e busca por sentido: o aumento de esteroides sexuais (como testosterona e estrógeno) intensifica a reatividade emocional e a busca por recompensas. A dopamina, especialmente sensível nessa fase, amplia a motivação por novidades e reconhecimento social.
Essa neuroquímica cria experiências marcadas por alta valência emocional — momentos que podem se tornar decisivos na formação de aprendizados duradouros.
Formação de padrões
Em um contexto de vivências intensas, as experiências adquirem significados emocionais profundos que, quando não elaborados, podem ser transformadas em generalizações baseadas em interpretações subjetivas.
Por exemplo, um episódio em que o adolescente não se sinta “bom o bastante” pode ser registrado com uma carga emocional ampliada pela explosão hormonal comum à fase do desenvolvimento. A busca pela solução desejada (ser bom) diante dessa angústia será feita dentro das limitações da recém-adquirida capacidade de formular pensamentos complexos e teorias sobre si e sobre o mundo.
Então, o padrão poderá ser aplicado a eventos futuros sempre que houver coincidência de significado emocional, independentemente do contexto. O indivíduo poderá, assim, tentar mostrar-se “bom o bastante” em qualquer ocasião ou fala em que se sinta diminuído, sendo guiado pela emoção original — e, muito provavelmente, adotando um comportamento adolescente, ainda que o episódio ocorra na vida adulta.
Penso que, ao final da adolescência, todos deveriam ter a oportunidade de fazer uma “revisão dos 18.000 km”, pois a ausência de reelaboração desses significados os transforma em padrões automáticos de interpretação e comportamento, moldando decisões futuras mesmo fora do contexto original.
Afinal, não é necessário que haja semelhança entre os eventos, mas sim entre os significados emocionais atribuídos a eles. E mais: a dor original, quando não elaborada, não “envelhece” — ela permanece viva e ativa, como no primeiro momento em que foi sentida.
Talvez, dessa forma, muitos problemas poderiam ser evitados na vida adulta.
Comentários em: "A neurobiologia emocional da adolescência e a necessidade da “revisão dos 18.000 km”" (5)
Que texto maravilhoso. Queria ter podido ler coisas assim em minha adolescência. Podia ter trazido muitos esclarecimentos.
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Obrigado! Espero que tenha tido bons insights.
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[…] A neurobiologia emocional da adolescência e a necessidade da “revisão dos 18.000 km” […]
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Cada vez mais, vejo como o autoconhecimento e o processamento das emoções internas podem mudar nossas vidas para melhor, tornando nossa experiência mais plena.
É preciso coragem para ir ao cerne das dores e transformá-las não? Mas com certeza vale a pena!
Gratidão.
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Vale, sim! Obrigado!
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