Crônicas, pensamentos e reflexões.

Ao verificar que a natureza dos problemas emocionais está concentrada nas relações, me parece coerente acreditar que a cura, também está nelas. Por mais que tenhamos capacidades psíquicas para regular através de qualquer mecanismo, se a proto-emocionalidade se mantiver problemática, exigirá um trabalho constante e, por fim, exaustivo, na tarefa de reequilibrar a psique.

A ideia de um aparelho emocional, inato e compartilhado, como área que recebe, organiza e promove a troca de afeto, coloca a razão como tarefa do aparelho psíquico, incumbindo-o de buscar relações legítimas para a homeostase emocional. A ideia do aparelho psíquico, por muitas vezes tendo como função principal a de reparador, poderia ser substituída pela função de avaliador, mediador e guia que busca conexões saudáveis e legítimas. A ideia de que somos totalmente responsáveis pela nossa saúde emocional (não só essa) deveria referir-se exclusivamente à busca de qualidade nas relações, e isso significa, também, que parte da psique que é compartilhada, pressupõe responsabilidade mútua no que se refere à saúde dessa.

Quando tratamos temas como o cuidado e as conexões legítimas de maneira abstrata, eles acabam sendo entendidos de maneira superficial, quase como conceitos místicos ou filosóficos, que muitas vezes não atendem as exigências práticas do contexto da saúde mental.
Este estudo, através de um modelo tangível, buscou transportar esses conceitos abstratos para o campo da análise pragmática.

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O equilíbrio do afeto estaria subordinado a capacidade do aparelho psíquico ou este age como resposta às interações afetivas? Se considerarmos estímulos externos, o aparelho psíquico age como regulador, mas, e quando se trata da própria pulsão? O ser, em toda sua extensão, poderia ser ao mesmo tempo fonte e regulador da própria energia vital? Seria possível sermos dotados de tamanha autonomia de maneira inata?

Parte nossa, não é exclusivamente nossa; mas uma intersecção, um ponto de encontro compartilhado entre o eu e o outro e responsável pela saúde emocional e psíquica e, desta forma, outro aspecto sugere a existência de um aparelho emocional, além do aparelho psíquico, que age como área compartilhada da psique, destinada a troca de afeto.

O aparelho psíquico, primeiramente, interpreta antes de atuar como agente regulador, ou seja; precisa do proto-emocionalidade ¹ que está localizado, de acordo com esta hipótese, no aparelho emocional, que absorve e organiza os estímulos primários.

¹proto-emocionalidade se refere ao estado bruto da emoção, conceito analisado na teoria do pensar de Wilfred Bion

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Os estudos de Pierre Marty, especialmente no que se refere a mentalização e psicossomática, indicam, em sua essência que, a qualidade das defesas do organismo está ligada à capacidade de representação. Isso significa que, a qualidade das defesas mentais, ou a mentalização (que é a capacidade de compreender e regular os estímulos através dos símbolos e suas associações), quando insuficiente, resulta na descarga da energia das pulsões diretamente no organismo como último recurso para viabilizar o equilíbrio.

Pensando sobre isto, e considerando a gênese do trauma -que o define como resposta mental em conjunto com o sistema nervoso a um evento negativo -, fica evidente que a pulsão de vida é a pulsão natural, e o trauma, em conjunto com suas possíveis respostas; é reação ao não-natural.

Porém, tal conclusão dedutiva aponta em outra direção, também: O trauma (emocional), por muitas vezes, pode se manifestar pela interpretação equivocada ou parcial de um evento, não necessariamente negativo e, se isso ocorre, ocorrerá, também, no contrário, pois a pulsão de vida também está limitada a capacidade psíquica, ainda que a intenção seja positiva. Uma mãe pode superproteger seu filho, por exemplo, resultando em transtornos futuros, por sua interpretação possível da pulsão de vida.

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