Crônicas, pensamentos e reflexões.

(Embora este texto esteja publicado na categoria “Achismo”, devo reforçar que tudo o que está nela são pensamentos livres, daqueles que mal temos ânimo para comentar por tão absurdos que possam parecer. Mas eu gosto deles porque, às vezes, podem oferecer uma nova perspectiva ou algum insight sobre as coisas. Portanto, não se trata de provas empíricas ou total coerência factual.)

Há aproximadamente 5500 anos, segundo a cronologia bíblica, Adão e Eva foram expulsos do paraíso. Esse período coincide com o surgimento das primeiras sociedades complexas, como os sumérios na Mesopotâmia, que marcaram uma nova era para a humanidade. 

Peço que deixe de lado qualquer preconceito, pois não se trata de um texto religioso ou ateísta. Minha proposta é uma reflexão incomum, mas surpreendente, sobre a correlação de alguns fatos. 

Adão e Eva, cujos nomes hebraicos significam “humanidade” e “tem vida”, tomaram uma decisão que lhes deu o conhecimento do bem e do mal. Como consequência, foram expulsos do paraíso e passaram a ser responsáveis pelo próprio sustento, além de enfrentar as dores do parto. 

Curiosamente, na mesma época, há cerca de 5500 anos, começaram a surgir as sociedades complexas, como os sumérios. Com elas, veio o desenvolvimento da escrita, da cultura e, sobretudo, a divisão de classes. 

A partir desse ponto, aqueles que antes eram nômades, em contato pleno com a abundância da natureza, começaram a sentir a necessidade de propriedade e acúmulo. Foram governados e divididos em classes, o que estimulou as separações e limitou o pensamento coletivo, reforçando a ideia do “eu” como algo separado. 

“Estou nu”, disse Adão, demonstrando explicitamente vergonha e autoconsciência; possivelmente, o surgimento do ego. 

Isso me levou a pensar que Adão e Eva, a humanidade vivente, desfrutavam livremente dos recursos e estavam em harmonia com o coletivo e a natureza, com um ego apenas funcional. Porém, em algum momento, desejaram a autonomia e, com ela, vieram as responsabilidades. Assim, pode ter surgido a dualidade: o “eu” separado do coletivo e da natureza. 

Talvez as dores do parto simbolizem o surgimento desta nova forma de viver — as sociedades complexas — onde se tem o conhecimento sobre o bem e o mal, mas onde o individualismo frequentemente se sobrepõe ao coletivo, em desarmonia com a natureza e com os outros. 

Além das vozes na minha cabeça, é observável que todos os grandes mestres espirituais e santos viveram de forma mais semelhante aos nômades que aos cidadão das sociedades complexas. Talvez eles tenham demonstrado o caminho de volta.

Não estou sugerindo, de forma alguma, que sejamos nômades, mas sim que, de alguma forma, possamos, ao menos, almejar um retorno à unidade. E a ideia apresentada, não exclui ensinamentos bíblicos e nem se opõe a teoria da evolução.

Bem, vou ali buscar minhas pílulas…

Enquanto me dava conta da impermanência das coisas, a sensação de desinteresse assolava todo meu ser; afinal, para que me dedicar? O mundo ficou sem cor e comecei uma busca desesperada por sensações que justifiquem minha permanência nele. As coisas que me eram tão caras e obtinham toda a atenção, assim como os objetivos materiais, para mim, de alguma maneira, perderam o sabor. O que fazer em um mundo sem cor? Qual o sentido de me apegar ao impermanente?

Após este período, o foco mudou para a necessidade de reconhecimento. Natural que emergisse uma ferida antiga após o desinteresse pelas coisas e pelo mundo. Ao mesmo tempo, lembranças dos dias mais felizes da minha vida surgiram como se o universo estivesse me estendendo a mão; mas não para me confortar com as memórias, e sim, para eu perceber que eu não possuía nenhum dos lugares, ou coisas, que estiveram ao meu alcance, nos dias mais importantes da minha vida.

A necessidade de reconhecimento foi se desmembrando: parte era necessidade de pertencimento, outra parte, era sentido de propósito; enfim, conexões e amor – afinal, eu amo buscar o sentido das coisas e encontrar correspondências que possam explicá-las.

Apesar de estar satisfeito neste momento – até porque, provavelmente amanhã surgirá uma nova questão que me inquietará – sinto que devo explicar o que compreendi da minha experiência no “caminho de volta”.

Afinal, o que diferenciou aqueles momentos inesquecíveis de tantos outros momentos? Uma das coisas foi minha total permanência e entrega ao momento vivido. Mas o que proporcionou condições para que isso acontecesse? Primeiro, a contemplação. Das três visões dos momentos que mais marcaram minha vida, em todas havia mistério – no que se refere à capacidade de se maravilhar sem ter a menor ideia do que virá a seguir -, a ausência de controle, portanto, é a primeira característica.

A segunda característica foi uma conexão profunda com quem estava comigo. Havia uma relação de confiança e cumplicidade quase que indescritíveis e, somada à primeira característica, por alguns instantes, nada mais importava além do fato de estar vivendo aqueles momentos. Era o amor.

A outra visão foi diferente das duas anteriormente descritas. Eu estava só, em um cômodo fechado, e o tom de mistério se deu por um cheiro. Uma mistura de mar com areia da praia, que estavam perto, me trouxe a sensação de pertencimento total ao meio e inúmeras possibilidades, ainda que indefinidas.

Então, o que me levou a alguns instantes no “paraíso”, foi o amor manifestado por conexões, seja ao meio ou a alguém, a falta de controle e o fato de não possuir nenhum destes.

Os momentos se passaram e deixaram lições importantes, ainda que eu tenha demorado anos para compreendê-las. Mas, se posso dizer, dentro das minhas possibilidades, o que realmente importa é: a capacidade de amar o próprio amor e deixá-lo fazer sua mágica, seja onde for. O apego aos momentos importantes podem limitá-lo, restringi-lo à nossa vontade; mas, lembre-se: talvez ele se dê, plenamente, na ausência de controle, nas conexões genuínas. Ao menos para mim, foi assim.

Esperar pelo extraordinário, pode fazer o extraordinário passar sem que você perceba.

Deixei todas as etapas da elaboração desta ideia em uma única página que pode ser encontrada ao lado do menu “Doações”, ou através deste link.

Talvez, a forma como temos observado o indivíduo, apesar de eficaz, seja parcial.  Ao analisarmos o “eu”, desejamos aplicar as regras de previsibilidade, entretanto, há outra forma de manifestação expressada sob uma perspectiva mais integrada, onde o “nós” age como onda, conectando os indivíduos através do aparelho emocional, viabilizando o fluxo de Eros.

Uma perspectiva não anula a outra, mas, talvez, possa complementar, pois, o estudo do “eu” nos ajuda na compreensão da individualidade e suas especificidades, enquanto a visão do “nós” demonstra uma interconexão essencial. Ambas têm sua mesma importância.

O eu é partícula, porque nesse caso o ego é o observador. O ‘nós’ é onda porque, nesse caso, o ‘Eu’ (Self) é o observador.