Crônicas, pensamentos e reflexões.

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A tal criança interior

Tenho notado que a tal criança interior, da maneira como é descrita por aí, parece uma figura infantil, carente de afeto e pedindo para ser abraçada e acolhida. As redes sociais ajudaram bastante a espalhar essa imagem, e a ideia de cuidar de um ser frágil que habita nosso íntimo desperta, quase sempre, o nosso lado protetor e amoroso.

Mas a observação clínica me trouxe uma visão bem diferente. A tal criança, na verdade, são fragmentos — partes que não se desenvolveram completamente, seja por ausência, seja por supressão. Explico:

As partes não desenvolvidas criam lacunas. Mas não no sentido de vazio, e sim de desequilíbrio. Imagine alguém que desenvolveu várias de suas capacidades, mas teve, por exemplo, a autonomia totalmente suprida pelos pais. Agora imagine outro caso: uma pessoa que, desde muito cedo, teve sua fragilidade negada e, para sobreviver, a criança adotou uma entidade psíquica — diferente da máscara ou persona, que têm funções adaptativas —, uma estrutura rígida, do tipo “valente e inabalável”.

Nos dois casos, capacidades emocionais fundamentais foram impedidas de crescer junto com as demais. E essas lacunas — que mantêm certos aspectos do self em estado subdesenvolvido — foram preenchidas, seja por entidades psíquicas idealizadas, seja por figuras externas que ocuparam aquele lugar.

O resultado? Um estado infantil disfarçado de maturidade, que funciona… até que algo foge do controle. E aí, no meio da vida adulta, a criança (ou adolescente) aparece, pega o microfone e dá um show.

Então, para quem tinha uma ideia romântica sobre a criança interior… lamento.
Mas há uma boa notícia: compreender essas diferenças pode tornar o caminho do desenvolvimento mais direto. Identificar o que se deu por falta ou por supressão ajuda a retomar o crescimento das partes que ficaram para trás — sem fantasia, mas com mais clareza e liberdade.

Leia o artigo completo: Anatomia da Criança Interior (inglês)

Pedalando por Dentro

Preparei uma pequena cartilha que pode ser um mapa para a adolescência. Nela, reuni o que aprendi em meus estudos, na experiência clínica e, principalmente, no adolescente que eu fui.

Este material foi criado com o objetivo de oferecer uma perspectiva mais leve e consciente sobre as emoções e os desafios dessa fase de grandes descobertas.

Espero que Pedalando por Dentro: Educação Emocional em Movimento ajude a transformar as complexidades dessa jornada em um caminho mais claro e tranquilo para adolescentes, pais e educadores.

As imagens foram geradas por IA, mas se algum ilustrador quiser fazer parte do projeto (sem fins lucrativos), por favor entre em contato.

A neurobiologia emocional da adolescência e a necessidade da “revisão dos 18.000 km”

Após publicar a Sequência de Processamento do Evento Emocional (SPEE), notei que não havia dado toda a ênfase necessária aos fatores biológicos característicos da adolescência que, talvez, possam minimizar o protagonismo da infância no que se refere à formação de padrões de comportamento.

Há muito o que se considerar na adolescência, pois, assim como o corpo, o cérebro também passa por mudanças importantes:

A maturação precoce da amígdala: (responsável pelas respostas emocionais), em contraponto com o desenvolvimento tardio do córtex pré-frontal, cria um descompasso biológico: a capacidade de sentir emoções é muito maior do que a de regulá-las e compreendê-las.

Poda sináptica: o cérebro elimina conexões neurais pouco utilizadas, reforçando circuitos mais ativos — ou seja, aquilo que é vivido com frequência, intensidade ou repetição tende a permanecer.

Tempestade hormonal e busca por sentido: o aumento de esteroides sexuais (como testosterona e estrógeno) intensifica a reatividade emocional e a busca por recompensas. A dopamina, especialmente sensível nessa fase, amplia a motivação por novidades e reconhecimento social.

Essa neuroquímica cria experiências marcadas por alta valência emocional — momentos que podem se tornar decisivos na formação de aprendizados duradouros.

Formação de padrões

Em um contexto de vivências intensas, as experiências adquirem significados emocionais profundos que, quando não elaborados, podem ser transformadas em generalizações baseadas em interpretações subjetivas.

Por exemplo, um episódio em que o adolescente não se sinta “bom o bastante” pode ser registrado com uma carga emocional ampliada pela explosão hormonal comum à fase do desenvolvimento. A busca pela solução desejada (ser bom) diante dessa angústia será feita dentro das limitações da recém-adquirida capacidade de formular pensamentos complexos e teorias sobre si e sobre o mundo.

Então, o padrão poderá ser aplicado a eventos futuros sempre que houver coincidência de significado emocional, independentemente do contexto. O indivíduo poderá, assim, tentar mostrar-se “bom o bastante” em qualquer ocasião ou fala em que se sinta diminuído, sendo guiado pela emoção original — e, muito provavelmente, adotando um comportamento adolescente, ainda que o episódio ocorra na vida adulta.

Penso que, ao final da adolescência, todos deveriam ter a oportunidade de fazer uma “revisão dos 18.000 km”, pois a ausência de reelaboração desses significados os transforma em padrões automáticos de interpretação e comportamento, moldando decisões futuras mesmo fora do contexto original.

Afinal, não é necessário que haja semelhança entre os eventos, mas sim entre os significados emocionais atribuídos a eles. E mais: a dor original, quando não elaborada, não “envelhece” — ela permanece viva e ativa, como no primeiro momento em que foi sentida.

Talvez, dessa forma, muitos problemas poderiam ser evitados na vida adulta.

DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.15757973