Será que a tecnologia está nos deixando mais inteligentes?
Definitivamente, não.
Hoje é comum ouvir frases como: “as crianças estão mais inteligentes — já nascem sabendo usar celular!”, assim, a facilidade com as tecnologias é compreendida como sinal de inteligência. Será?
Dia desses, estava conversando sobre todo o movimento e as relações envolvidos no simples ato de buscar um livro na biblioteca, ou ir à locadora escolher filmes para o final de semana. Havia a necessidade de se locomover, interagir com pessoas, tocar objetos, respirar fora de casa, enfim.
Hoje, todo esse movimento é substituído facilmente por um clique. Mas a que custo? Um duplo sedentarismo (físico e cognitivo) está sendo estabelecido com um ar de “evolução”.
As relações interpessoais e a relação pessoa/objeto estão intrinsecamente ligadas ao saber. Um exemplo simples que explica tal fato é o ato de escrever à mão e digitar.
Escrever à mão envolve movimentos distintos para a escrita de cada letra, enquanto digitar se resume a acionar teclas iguais. Estudos mostram que escrever à mão ativa áreas do cérebro ligadas à memória e à compreensão, favorecendo o aprendizado mais profundo e duradouro.
De forma alguma estou sugerindo que se escreva só à mão, mas, poderíamos, ao menos, fazê-lo durante o desenvolvimento de ideias e o aprendizado, restringindo a digitação, simplesmente, para reprodução e divulgação.
Cada vez que substituímos nossas capacidades pela tecnologia, como se não as tivéssemos, caminhamos rumo à involução. Não acredita? Então saiba que estamos perdendo 7 pontos de QI por geração, ou 2-3 pontos por década.
A minha abordagem neste post é com foco na tecnologia, porém, não é o único fator para o declínio cognitivo, mas o fato é que o sedentarismo cognitivo — físico e mental — é o motor.
Sem mais delongas, vamos aos dados:
Um estudo norueguês publicado em 2018, na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) por Bernt Bratsberg e Ole Rogeberg, do Ragnar Frisch Centre for Economic Research.
Amostra:
Analisaram 730.000 resultados de testes de QI de homens noruegueses nascidos entre 1962 e 1991, que fizeram o serviço militar obrigatório (um teste padronizado e representativo).
Resultados:
- Para nascidos até 1975: Aumento de \sim 3 pontos por década (efeito Flynn clássico).
- Para nascidos após 1975: Declínio médio de 7 pontos por geração (equivalente a \sim 0,2 pontos por ano ou 2-3 pontos por década).
- O declínio foi observado dentro das mesmas famílias (entre irmãos e pais/filhos), descartando fatores demográficos como “pessoas menos inteligentes tendo mais filhos” (hipótese “disgênica”).
Causas Sugeridas (não genéticas, mas ambientais):
- Mudanças na educação: Menos ênfase em habilidades analíticas, mais em telas passivas.
- Estilo de vida: Menos leitura de livros, mais tempo em vídeos e jogos digitais; pior qualidade do sono e nutrição (exemplo: menos ômega-3 de peixes, que elevam o QI em \sim 4-5 pontos).
- Fatores sociais: Aumento de telas (como discutimos antes!), poluição, estresse e menos brincadeiras criativas.
Impacto:
Uma perda de 7 pontos é significativa — move a média populacional de “normal” (100) para “abaixo da média” (93), afetando a cognição fluida (raciocínio lógico) mais que a cristalizada (conhecimento acumulado).

Referências:
- James, K. H., & Engelhardt, L. (2012). The effects of handwriting experience on functional brain development in pre-literate children. Trends in Neuroscience and Education, 1(1), 32–42. https://doi.org/10.1016/j.tine.2012.08.001
- Bratsberg, B., & Rogeberg, O. (2018). Flynn effect and its reversal are both environmentally caused. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), 115(26), 6674–6678. https://doi.org/10.1073/pnas.1718793115