A tal inteligência emocional, celebrada como virtude, geralmente refere-se à contenção e à regulação. Afinal, o objetivo é o ser funcional — aquele que produz sem dar muito trabalho — transformando o córtex pré-frontal em um burocrata, um agente da cultura, ignorando sua função de arquiteto da consciência.
A própria etimologia da palavra “emoção” — emovere, mover para fora — já indica seu papel como força propulsora. E, considerando os aspectos evolutivos, emoções como medo, raiva e desejo foram essenciais para a sobrevivência de nossos ancestrais. Elas nos tornaram rápidos, atentos, capazes de formar vínculos e evitar perigos. Emoções não são disfunções a serem contidas — são expressões legítimas da vida em movimento.
Mas há um porém: a emoção é resposta à realidade percebida, não à realidade objetiva. E é aí que se torna visível o desenvolvimento — limitado pela cultura — do córtex pré-frontal. Explico:
Se sentimos antes de pensar, é porque não vemos o mundo como ele é, mas como fomos moldados a percebê-lo. Na infância, o córtex pré-frontal ainda está em desenvolvimento. Isso torna a percepção fortemente influenciada por experiências afetivas iniciais, como aponta Siegel (2012). Situações de rejeição, crítica ou desamparo são registradas não apenas cognitivamente, mas também corporalmente, como memórias emocionais implícitas (VAN DER KOLK, 2014). Esse processo gera a percepção moldada — uma lente subjetiva que acompanha o indivíduo na vida adulta.
Assim, a emoção é sempre real no corpo, mas pode ser falsa em relação ao mundo. Um e-mail ríspido pode ativar a mesma sensação de abandono vivida na infância; uma crítica pode disparar memórias de rejeição, mesmo sem ameaça atual.
Essa dinâmica explica por que estratégias de inteligência emocional muitas vezes fracassam: não porque a pessoa é fraca, mas porque a percepção moldada já disparou a resposta emocional antes da intervenção racional (DAMÁSIO, 2010).
Talvez o uso mais natural do termo “inteligência emocional” devesse referir-se à expansão da percepção — integrando a emoção como linguagem da consciência, como arquiteto de sentido, enfim.
Não precisamos de mais contenção emocional — precisamos de mais consciência emocional. Que o córtex pré-frontal deixe de ser um funcionário da cultura e assuma seu papel como legislador da alma.
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