Crônicas, pensamentos e reflexões.

Arquivo para dezembro, 2024

A anatomia da alma e a espiritualidade

As três virtudes

Após estar -temporariamente- satisfeito com os estudos interdisciplinares que, quando não as embasavam, eram complementados pela hipótese apresentada no estudo “Anatomia da alma”, a calmaria deu, mais uma vez, lugar à inquietude. Embora a neuroteologia, conhecida também como neurociência da religião, atenda de forma eficaz ao que se propõe, como traduzir aquilo que os grandes mestres espirituais e santos expressaram, transformando suas próprias vidas em exemplo, que inspiraram tantas pessoas?

Por muitas vezes, criei resistências, pois, por ser batizado na Igreja Católica, meu autocensor se manifestava a cada vez que eu ousava conhecer outras religiões, doutrinas ou filosofias. Mas algo sempre me ofereceu forças que pudessem se opor ao meu censor: parecia-me razoável que Deus, conhecedor de todas as culturas, encontrasse uma forma de inspirar cada uma delas de acordo com suas especificidades, incluindo, até mesmo, tradições não teístas, e sem mudar Sua essência. Então, encontrando tais virtudes em comum em diferentes crenças, as diferenças estariam na manifestação cultural, e não nas próprias virtudes fundamentais.

Na obra “O Caminho de Perfeição”, de Santa Teresa D’Ávila, ela fala explicitamente sobre três virtudes: “Uma é o amor de uma para com outras; outra, o desapego das coisas criadas; e a terceira, a verdadeira humildade que, embora a diga no fim, é a principal e abrange todas.”

Havendo estudado sobre o Budismo, embora, confesso, não tão profundamente quanto carecia, notei que, mesmo que não fale de humildade explicitamente, o faz na prática, pois o reconhecimento do “não-eu” (anatta) e a necessidade de superação daquilo que temos como centro da nossa própria consciência—o ego—requer humildade para constatar e lidar com as limitações individuais. O desapego também é uma virtude praticada no Budismo, pois é instrumento na batalha contra o desejo, e o amor, “Metta”, é altruísta, universal e sem apego—semelhante ao amor descrito por Santa Teresa D’Ávila.

Na minha ignorância sobre o Judaísmo, e para não negligenciar, de forma alguma por falta de conhecimento, busquei simplesmente três conceitos: Ahavah (amor). O amor ao próximo é um dos mandamentos fundamentais; Anavah (humildade), autoconhecimento e modéstia; Tzedakah e Kavanah, conceitos de desapego que estão relacionados com a caridade.

Encontrei, também, nas religiões de origem africana e no Kardecismo as mesmas virtudes, expressadas pelo exemplo de valorização do amor ao próximo e pela prática da caridade, que também reflete o desapego. Além disso, a humildade, que admite a necessidade de evolução constante.  Não tendo conhecimento profundo sobre todas essas tradições, qualquer tentativa de me aprofundar sem o devido preparo seria irresponsável. Porém, as três virtudes fundamentais podem ser facilmente reconhecidas em todas elas.

Note que não estou me referindo a lugares específicos, tampouco a seus devotos ou praticantes. O que busco trazer aqui, em essência, são as virtudes fundamentais que sustentam as religiões e filosofias espirituais. Cada um sabe onde é seu lugar quando o encontra; o que trago aqui, porém, é a atenção ao que as sustenta, não ao método.

Meu foco se voltou para a espiritualidade de forma inevitável, pois, quando descrevi Eros, psique, aparelho emocional, sombras e o elemento fundamental, o fiz de forma que a humildade fosse vista como condição para a psique enxergar além de si mesma, constatando Eros e facilitando seu fluxo natural para o aparelho emocional onde são realizadas as trocas de afeto em estado puro nas conexões genuínas de amor. No entanto, uma correspondência viável e multidisciplinar que encontrasse relação na espiritualidade parecia algo distante. Não que haja tal distância, de fato, mas parecia assim pelos limites do meu conhecimento.

Não posso deixar de mencionar, também, equívocos comuns que nos levam a abandonar práticas que, como este estudo tem demonstrado, não tratam de experiências místicas ou de interpretações metafóricas, mas de necessidade para realização da experiência humana em sua plenitude. E observando tais equívocos, trago três exemplos que são frequentemente observados:

Desapego não é desprezo. O desapego consiste na atribuição consciente de valor, que se difere do desejo de possuir. Podemos cuidar de uma planta, sem ficarmos obcecados com o seu crescimento.

 Humildade não é autodepreciação. Humildade é a virtude que nos permite reconhecer as limitações e falhas, assim possibilitando o aprendizado. É um olhar honesto para a própria natureza que também facilita as conexões verdadeiras.

O amor verdadeiro procura dar mais que receber. É alimento de Eros e da psique, o elemento fundamental que expressamos conforme nossas possibilidades, ainda que traduzido e interpretado dentro das nossas limitações, não se limita a elas.  

Essas três virtudes, presentes em diversas tradições, mostraram-se mais que conceitos teóricos, mas fundamentos práticos que permitem a expressão da alma em sua plenitude. É possível reconhecê-las e vive-las de acordo com as crenças e especificidades de cada um, são como um “guia prático” para a realização da alma, alimentada pelo elemento fundamental.

Referências bibliográficas

ÁVILA, Teresa de. O Caminho de Perfeição. EDITORA FAMÍLIA CATÓLICA, 2018.

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Proto-emocionalidade

Até este ponto, as emoções primárias foram reconhecidas como reações à interação com Eros. Portanto, o aparelho emocional não poderia ser repositório de nada além de amor em estado bruto, enquanto o aparelho psíquico é encarregado de regular as emoções primárias.

Por se tratar de um meio para a realização de Eros, ainda não pode ser interpretado pelo aparelho psíquico. O amor manifestado carrega consigo elementos que estão além da lógica e cognição, podendo ser sentido, mas nem sempre explicado.

Diferentemente das outras reações inconscientes, ora manifestadas através das emoções primárias, não reflete acúmulo das experiências vividas. É uma necessidade básica que pressupõe troca para a realização da homeostase emocional, que, como aponta este estudo, é a realização da alma e instrumento para a regulação emocional, pois, mesmo o autoamor consciente de sua natureza, também busca a integração e conexões genuínas para troca.

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Amor-próprio

A psique, quando iluminada por Eros sem saber disso, tende a acreditar na própria luminescência, o que é, naturalmente, um engano. Neste ponto, a vaidade pode ser confundida com amor-próprio e privá-la dos benefícios do autoamor, enganando a si mesma e aos outros, como quem observa a lua acreditando que ela seja portadora da própria luz, impedindo a realização de Eros.

Jung, embora usando outros termos, alertou em sua obra Aion que o ego tenta usurpar a herança do self, para a qual não está qualificado de forma alguma. Já o autoamor da psique, quando consciente da presença de Eros, é integrativo e essencial para a saúde mental; pré-requisito para a consciência da dinâmica entre Eros e psique; o eu e o outro, as sombras na parede da caverna, o aparelho emocional e, principalmente, o elemento fundamental como o ar: o amor que viabiliza toda esta dinâmica, como na individuação – embora Jung não tenha mencionado explicitamente o amor como elemento fundamental da integração.

O autoamor, quando consciente da origem de sua luz, tende naturalmente a depositar amor no aparelho emocional para ser compartilhado. Não encontra fim em si mesmo, pois a realização de Eros se consiste na multiplicação e inclusão através de conexões genuínas, regulando a psique e oferecendo aos outros a mesma possibilidade. O autoamor, quando ignora sua natureza, aliena-se, provoca ciúme por acreditar que é provedor da própria luz e exige devoção. Nesse ponto, já deixou de ser fluxo natural de Eros e não há mais depósito no aparelho emocional.

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Referências bibliográficas
JUNG, Carl Gustav. Aion: Estudos sobre o simbolismo do Si-mesmo. Tradução de Sérgio C. B. de Moraes. Rio de Janeiro: Vozes, 2001.

JUNG, C. G.; VON FRANZ, M.-L.; HENDERSON, J. L.; JACOBI, J.; JAFÉ, A. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1977.