Como tornar tangível algo que existe no campo metafísico ou abstrato há milhares de anos? Apesar do processamento da dor sugerir nociceptores emocionais, quais são as evidências da existência desses, de fato? A razão analógica bastaria para tornar evidente algo tão abstrato? O desejo de decifrar a alma sempre esteve presente na história da filosofia.
Para Aristóteles, a alma era como um agente organizador do corpo e não era imortal, pois, para ele, alma e corpo estariam intrinsecamente ligados. Para Pitágoras, a alma era imortal e passava por ciclos de reencarnação. Heráclito associava a alma ao fogo, como algo ilimitado, mas que precisava ser purificado. Para Sócrates, a alma era o verdadeiro “eu”, e cuidar dela era mais importante que cuidar do corpo. Para os Estoicos, a alma era parte do logos, o princípio racional universal e tinha natureza divina. Já para Plotino, a alma precisava evoluir para alcançar a união com o Uno.
Cada um deles, a seu modo, tentou tornar a alma tangível de alguma forma, porém, sem exceção, a viram como algo além do corpo, ainda que conectado.
Passando da filosofia para a psicanálise de Freud, encontramos o conceito de inconsciente. Quando ele disse “O eu não é senhor em sua própria morada”, e que o inconsciente é determinante em nossos atos, acabou por demonstrar semelhanças entre a dualidade alma/corpo abordada pela filosofia, mas agora sob uma nova perspectiva.
Mas Freud foi além de “descobrir” o inconsciente. Na segunda tópica, ele dividiu o aparelho psíquico em id, ego e superego. Basicamente, isso significa que o ego, que em parte é consciente e parte pré-consciente, é mediador entre as pulsões do id, que é parte primitiva relacionada à satisfação de desejos e instintos, e o superego, que atua como juiz ou censor que interiorizou as exigências, geralmente parentais, que formam a consciência moral e, também, o sentimento de culpa.
Se considerarmos, então, que o ego é parte consciente e parte pré-consciente, o id é inconsciente, e o superego está presente no consciente, pré-consciente e inconsciente e se desenvolve a partir do ego, podemos perguntar: onde estaria a alma, como agente responsável por essas conexões? E qual parte seria responsável pela saúde dessas dinâmicas internas? Na psicanálise, a saúde mental pode ser entendida como o equilíbrio entre essas instâncias, onde a capacidade do ego para mediar os impulsos do id e as exigências do superego, reflete uma psique equilibrada. Então, se trouxermos o modelo de Freud para o estudo da anatomia da alma, como ficaria?
Freud, em sua obra Além do princípio do prazer (1920), explica a dinâmica complexa e conflitante entre as duas forças que operam no inconsciente: Eros (pulsão libidinal que motiva o indivíduo a vida) e Tânatos (a pulsão de morte). O id contém tanto Eros quanto Tânatos, inclui impulsos sexuais, agressivos, etc. Então, o modelo de uma alma que tem como função estabelecer conexões não pode ser, de forma alguma, o próprio id, nem o ego e, tampouco, o superego que também traz elementos do Tânatos.
Sendo assim, a semelhança entre a alma e Eros é inquestionável; então, de onde viria a força de Tânatos como opositor equivalente? Um exemplo bastante comum utilizado para explicar é o ato de se alimentar; apesar de ser uma pulsão de vida, destrói o alimento ao mastigar. Freud também associou a pulsão de morte à busca pela paz, ou ausência de estímulos, se referindo aos soldados que voltaram da Segunda Guerra Mundial. Mas, ao se alimentar a intenção está no próprio ato e, destruir o alimento, nada mais é que um meio. Quanto ao exemplo dos soldados, se atribuirmos o desejo de paz ou ausência de estímulos à pulsão de morte, essa também não existirá por si mesma.
Em outros termos, essa interpretação sugere que a pulsão de morte não existe de forma autônoma (ao menos quando consideramos estes exemplos clássicos), mas sempre a serviço ou em resposta a Eros. Tânatos não seria uma força contrária equivalente, mas uma consequência. E, sendo assim, Eros é o conceito que mais se aproxima da ideia de alma proposta neste estudo.
Talvez, a pulsão de morte seja a interpretação da psique sobre a sombra do obstáculo refletida entre a fogueira e a parede da caverna.
Outras abordagens apontam para a necessidade de relacionamento, como foi proposta em 1981 por Richard M. Ryan e Edward L. Deci, a Teoria da Autodeterminação, onde o ser humano possui três necessidades psíquicas básicas: autonomia, competência e relacionamento.
Portanto, depois de considerar a filosofia, psicanálise e outros estudos, percebemos que, mesmo sendo invisível, a alma se manifesta através das interações psíquicas, podendo assim, ser percebida. Demonstra, também, a necessidade de conexões e a importância da saúde proporcionada pelo equilíbrio dessas.
Referências bibliográficas
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
ARISTÓTELES. De Anima. Tradução e introdução de Robert D. Hicks. Oxford: Clarendon Press, 1907.
RYAN, Richard M.; DECI, Edward L. Self-determination theory: Basic psychological needs in motivation, development, and wellness. New York: Guilford Press, 2017.
PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. 2. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1987. Livro VII, 514a-517a.
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