Ainda intrigado e fascinado com a hipótese de haver uma anatomia da alma – já que isso ajudaria a tratar de forma mais eficaz as dores sociais – passei a procurar paralelos entre a dinâmica cerebral durante eventos de dores físicas. O córtex somatossensorial, por exemplo, obtém informações detalhadas sobre a origem, intensidade e localização da dor, mas o que ocorre nas dores sociais? Assim como o córtex somatossensorial se comunica com o córtex cingulado anterior (que está associado à regulação da dor, física ou não) durante o processamento da dor física, o córtex pré-frontal e a ínsula são ativados durante o evento de uma dor social.
A questão é: Será que esses carregam, também, informações sobre a origem, intensidade e localização? Ou eles já são a própria localização e nos resta olhar para a origem e tratar a intensidade?
Seguindo por esta linha, o córtex pré-frontal (relacionado ao processamento de emoções complexas) pode estar envolvido com as dores da rejeição ou fracasso, por exemplo, enquanto a ínsula (relacionada às emoções) está para a tristeza profunda.
Bem, vamos pensar na seguinte situação: a depressão pode ocorrer tanto na rejeição quanto no luto; os antidepressivos, porém, tratam os sintomas equilibrando os neurotransmissores e, combinados com terapia, obtêm resultados realmente satisfatórios. Mas, e se a medicação pudesse agir nas áreas específicas de acordo com a anatomia da alma? E se, quando descoberta a origem (vamos supor que a depressão foi provocada pelo luto), o tratamento medicamentoso fosse direcionado, especificamente, em áreas como a ínsula?
Apesar da ambiguidade no uso do termo ‘Anatomia da Alma’, é importante ressaltar que a nossa subjetividade, no caso das dores da alma, é determinante no ato de sentir. Afinal, ainda que sejam estabelecidas as áreas do cérebro e suas dores sociais correspondentes, aquele ‘eu’, carregado de sua cultura e especificidades, é quem dirá se um evento o deixará, por exemplo, triste ou não.
Parece algo simplista, beirando a obviedade, mas vamos usar da seguinte comparação: Milhares de pessoas podem ir a uma praia no Rio de Janeiro em um dia de quarenta e dois graus e, é quase certo de que todas sentirão calor em algum momento. Veja no caso do “eu”, porém: Submeta milhares de pessoas a uma situação social específica em que você ficou triste; será que todas sentirão o mesmo? Não.
Vamos enriquecer este raciocínio com uma descoberta neurocientífica: Alterações químicas no cérebro podem afetar nossos pensamentos, assim como nossos pensamentos podem provocar alterações químicas no cérebro. Assim, as alterações químicas podem ser tanto causa quanto consequência nos estados emocionais.
Tal relação não cabe no exemplo da praia, ou seja; o que é simplesmente físico, não segue as mesmas regras do que é mental. Em outras palavras, a Anatomia da Alma, ainda que manifestada em áreas específicas do cérebro, não é, de forma alguma, um vislumbre da própria alma, pois isto seria o equivalente ao observar a dor através do córtex cingulado anterior e tentar determinar de onde ela veio, sem considerar as informações do córtex somatossensorial. Porque, ainda que a ínsula ou o córtex pré-frontal possam dizer qual é o tipo de dor, não podem dizer onde é a parte da alma que sentiu, por causa da subjetividade.
Afinal, uma perda pode ser vivida como luto ou rejeição; doer nos pulmões ou no coração e, tanto a terapia psicológica quanto a medicamentosa, poderiam, talvez, serem mais objetivas e precisas. Talvez, a própria alma se molde constantemente, de forma que um evento seja sentido em lugares diferentes, dependendo do momento e, por isto, seja tão difícil determinar sua anatomia. Mas, compreender onde dói e por quê, e tratar de forma mais objetiva, já seria um avanço significativo. Bem, tudo isso carece de muita pesquisa e, ainda que eu não possa realizá-las, gostaria muito que algum dia alguém a fizesse. De qualquer forma, tal hipótese tem me entusiasmado.
Continua…
neurociência, psicologia, alma, depressão
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