Crônicas, pensamentos e reflexões.

Adenium obesum

As memórias vêm como a luz refletindo em uma pintura sacra, colorindo o pó daquilo que há muito não é visitado. O som aparece por dedução, remetendo à época gloriosa hoje silenciada. A virtude se transformou em nostalgia enquanto o vislumbre do sótão, carregado de possibilidades para a imaginação daquele que se identifica, almeja que a vida retorne através do mesmo entusiasmo que um dia fora perdido.

Não há glória no abandono, não existe poesia na rejeição. Tristes pastos solitários, triste céu, só um pássaro se atreve a cantar, destoando do redor, onde a chuva sacramenta a visão que paralisa por sua dor. Onde está a vida? Onde está o calor? Se, por um lado, o aconchego das cobertas aquece, engana por ser artificial e, mesmo assim, na ausência de mais, conforma-se na morte do sonhador, toda esperança que fora vendida por ilusão nas mãos hábeis de quem nunca pode escutar a música da vida, em todas as suas notas, e jamais poderia compreendê-la. Quem será mais triste, afinal?

O lago congelado não criou ondulações quando a pedra foi jogada; na verdade, trincou. Todos os raios, como testemunhas, realçaram a ausência, a negligência e, ainda que as emoções não encontrassem mais lugar ou força, a água escapou pela fenda e foi evidenciada pela luz dos relâmpagos e entrelaçada na sinfonia ao som do trovão. Há vida, há luz e música! A esperança venceu. O pássaro já sabia.

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