Crônicas, pensamentos e reflexões.

Arquivo para outubro, 2024

A Anatomia da Alma

Ainda intrigado e fascinado com a hipótese de haver uma anatomia da alma – já que isso ajudaria a tratar de forma mais eficaz as dores sociais – passei a procurar paralelos entre a dinâmica cerebral durante eventos de dores físicas. O córtex somatossensorial, por exemplo, obtém informações detalhadas sobre a origem, intensidade e localização da dor, mas o que ocorre nas dores sociais? Assim como o córtex somatossensorial se comunica com o córtex cingulado anterior (que está associado à regulação da dor, física ou não) durante o processamento da dor física, o córtex pré-frontal e a ínsula são ativados durante o evento de uma dor social.

A questão é: Será que esses carregam, também, informações sobre a origem, intensidade e localização? Ou eles já são a própria localização e nos resta olhar para a origem e tratar a intensidade?

Seguindo por esta linha, o córtex pré-frontal (relacionado ao processamento de emoções complexas) pode estar envolvido com as dores da rejeição ou fracasso, por exemplo, enquanto a ínsula (relacionada às emoções) está para a tristeza profunda.

Bem, vamos pensar na seguinte situação: a depressão pode ocorrer tanto na rejeição quanto no luto; os antidepressivos, porém, tratam os sintomas equilibrando os neurotransmissores e, combinados com terapia, obtêm resultados realmente satisfatórios. Mas, e se a medicação pudesse agir nas áreas específicas de acordo com a anatomia da alma? E se, quando descoberta a origem (vamos supor que a depressão foi provocada pelo luto), o tratamento medicamentoso fosse direcionado, especificamente, em áreas como a ínsula?

Apesar da ambiguidade no uso do termo ‘Anatomia da Alma’, é importante ressaltar que a nossa subjetividade, no caso das dores da alma, é determinante no ato de sentir. Afinal, ainda que sejam estabelecidas as áreas do cérebro e suas dores sociais correspondentes, aquele ‘eu’, carregado de sua cultura e especificidades, é quem dirá se um evento o deixará, por exemplo, triste ou não.

Parece algo simplista, beirando a obviedade, mas vamos usar da seguinte comparação: Milhares de pessoas podem ir a uma praia no Rio de Janeiro em um dia de quarenta e dois graus e, é quase certo de que todas sentirão calor em algum momento. Veja no caso do “eu”, porém: Submeta milhares de pessoas a uma situação social específica em que você ficou triste; será que todas sentirão o mesmo? Não.

Vamos enriquecer este raciocínio com uma descoberta neurocientífica: Alterações químicas no cérebro podem afetar nossos pensamentos, assim como nossos pensamentos podem provocar alterações químicas no cérebro. Assim, as alterações químicas podem ser tanto causa quanto consequência nos estados emocionais.

Tal relação não cabe no exemplo da praia, ou seja; o que é simplesmente físico, não segue as mesmas regras do que é mental. Em outras palavras, a Anatomia da Alma, ainda que manifestada em áreas específicas do cérebro, não é, de forma alguma, um vislumbre da própria alma, pois isto seria o equivalente ao observar a dor através do córtex cingulado anterior e tentar determinar de onde ela veio, sem considerar as informações do córtex somatossensorial. Porque, ainda que a ínsula ou o córtex pré-frontal possam dizer qual é o tipo de dor, não podem dizer onde é a parte da alma que sentiu, por causa da subjetividade.

Afinal, uma perda pode ser vivida como luto ou rejeição; doer nos pulmões ou no coração e, tanto a terapia psicológica quanto a medicamentosa, poderiam, talvez, serem mais objetivas e precisas. Talvez, a própria alma se molde constantemente, de forma que um evento seja sentido em lugares diferentes, dependendo do momento e, por isto, seja tão difícil determinar sua anatomia. Mas, compreender onde dói e por quê, e tratar de forma mais objetiva, já seria um avanço significativo. Bem, tudo isso carece de muita pesquisa e, ainda que eu não possa realizá-las, gostaria muito que algum dia alguém a fizesse. De qualquer forma, tal hipótese tem me entusiasmado.

Continua…

neurociência, psicologia, alma, depressão

Um paracetamol para rejeição, por favor.

Certa vez, um estudo conduzido pela psicóloga social Naomi Eisenberger revelou que a dor social é sentida de forma semelhante à dor física, no Córtex Cingulado Anterior (CCA). Resumindo, submeteram os participantes a uma situação em que experimentaram rejeição social e, através de exames, constataram que o uso de paracetamol diminuía a dor social de forma significativa, da mesma maneira que ocorre com a dor física, em comparação aos que tomaram placebo. Bem, essa pesquisa curiosa levanta questões interessantíssimas!

Sabendo que as dores físicas e sociais podem ser percebidas na mesma região do cérebro, mas por estímulos completamente distintos, pensei o seguinte: Se eu sinto dor nos olhos, obviamente não irei me consultar com um urologista. Afinal, o corpo e nossa percepção sobre ele nos tornam capazes de saber exatamente onde dói (quase sempre). Mas e quanto às dores da alma? Seria estranho dizer que fulano(a) sentiu dor no nariz da alma, né? Ou, talvez, até soe menos estranho, num primeiro momento, dizer: ‘Os rins da sua alma não estão trabalhando muito bem’. Bem, isso acabou me fazendo refletir sobre a possível existência de partes que a ‘alma’ possa ter. Note: ‘alma’, mente, psique, corpo social/mental, ou qual seja a maneira mais apropriada para chamar.

Talvez ainda falte identificar a existência de tais partes. Talvez, um dia percebamos que podemos estar tratando as dores da alma como se chegássemos a um médico e disséssemos: “Estou com dor, faça alguma coisa, doutor”.

Adenium obesum

As memórias vêm como a luz refletindo em uma pintura sacra, colorindo o pó daquilo que há muito não é visitado. O som aparece por dedução, remetendo à época gloriosa hoje silenciada. A virtude se transformou em nostalgia enquanto o vislumbre do sótão, carregado de possibilidades para a imaginação daquele que se identifica, almeja que a vida retorne através do mesmo entusiasmo que um dia fora perdido.

Não há glória no abandono, não existe poesia na rejeição. Tristes pastos solitários, triste céu, só um pássaro se atreve a cantar, destoando do redor, onde a chuva sacramenta a visão que paralisa por sua dor. Onde está a vida? Onde está o calor? Se, por um lado, o aconchego das cobertas aquece, engana por ser artificial e, mesmo assim, na ausência de mais, conforma-se na morte do sonhador, toda esperança que fora vendida por ilusão nas mãos hábeis de quem nunca pode escutar a música da vida, em todas as suas notas, e jamais poderia compreendê-la. Quem será mais triste, afinal?

O lago congelado não criou ondulações quando a pedra foi jogada; na verdade, trincou. Todos os raios, como testemunhas, realçaram a ausência, a negligência e, ainda que as emoções não encontrassem mais lugar ou força, a água escapou pela fenda e foi evidenciada pela luz dos relâmpagos e entrelaçada na sinfonia ao som do trovão. Há vida, há luz e música! A esperança venceu. O pássaro já sabia.