Crônicas, pensamentos e reflexões.

Arquivo para junho, 2024

A cultura do egoísmo

Qual será o benefício da confusão onde opiniões se misturam com fatos e batalhas são travadas sob um campo encoberto pela fumaça das narrativas? Às vezes a sensação que tenho é de isso que pouco importa para alguns, além do exercício de manutenção da própria vaidade. Vejo um lado que se comporta como um adolescente de doze anos rejeitado pelos pais; com sua recém adquirida capacidade de formular teorias, rompantes de egocentrismo, sem estímulo à função executiva do controle inibitório, antes do desenvolvimento completo do córtex pré-frontal (que leva as questões à razão) e desejo de destruir aquilo que não tiveram. Mas esses são menos perigosos que aqueles que sabem e incentivam isso através da cultura do egoísmo.

                Já escrevi outras vezes, mas não me canso, pois, estamos alcançando um nível de egoísmo que supera o que sustentou nossa evolução até aqui. Estamos a ponto de sermos mais egoístas que nossos próprios genes que garantiram a nossa existência, como descreveu Richard Dawkins em “O gene egoísta”. Resumindo: um pinguim, se pudesse, não hesitaria em empurrar o outro ao mar para ser devorado por uma foca se isso promovesse a sobrevivência da própria prole (o gene). E nós somos os únicos que podem aspirar superar essa determinação genética por meio da empatia.

                Mas existe uma cultura que tenta deixar as pessoas mais egoístas que seus genes em troca de uma sensação de pertencimento à grupos enviesados e suas promessas vazias e segregadoras. E é claro que isso funciona, pois, como disse anteriormente: “adolescentes rejeitados pelos pais”. Mas isso vai além, já que tal cultura visa se perpetuar e um de seus recursos é falar sobre gênero na primeira infância, durante a fase fálica que, segundo Freud, onde se dá o complexo de Édipo. E este, quando bem concluído, contribui para o desenvolvimento do superego, parte que atua como sensor do próprio ego que lida com os impulsos do ID (que é puro desejo) e a realidade externa. Ou seja, isso afetará diretamente o desenvolvimento da personalidade as carregando com tendências egoístas e princípios hedonistas.

                E agora a liberação do porte de… Orégano? Ora, devemos considerar que quando consumida por adolescentes, as chances de dependência são de 17% segundo a NIDA (National Institute on Drug Abuse), e 9% para usuários adultos. Mas vou falar só sobre o consumo entre adolescentes. O uso regular de maconha durante a adolescência, período crucial para o desenvolvimento do cérebro, pode ter impactos negativos mais acentuados. Estudos mostram uma associação entre o uso precoce de maconha e uma redução no QI, além de outros déficits cognitivos.

                O conjunto da obra até aqui, somado a destruição de valores que visam respeito à vida, empatia e caridade, parece ter um objetivo concreto.

                Então, sem eximir ninguém da responsabilidade, como deixamos a situação chegar a esse ponto? Para onde estavam voltados nossos olhos enquanto tudo isso acontecia?

                Deixo claro, também, que estas são conclusões pessoais, sob minha perspectiva do mundo, evidentemente limitada.  

A Jornada Heroica da Autoconsciência

O que lhe parece mais sensato ter sido dito há dois mil anos atrás: “Se arrependa e perdoe” ou: “Olha, fulano(a), o arrependimento ativa a amigdala, uma região do seu cérebro associada às emoções e, sendo assim, você ficará triste, sentirá remorso e aumentará sua autocrítica. Já o perdão, porém (que envolve seu córtex Cingulado Anterior, que também está relacionado à empatia e seu córtex Pré-frontal medial, responsável pela tomada de decisão e julgamentos morais), pode reduzir o estresse causado pelo ódio crônico, melhorando seu bem-estar e sua saúde cardiovascular e, ainda, reduz os sintomas da depressão. Então, arrependimento seguido do perdão, pode lhe promover um salto em seu desenvolvimento humano. Entendeu?”

                Poderia continuar dizendo: “Não odeie”, ou simplesmente: “Fulano(a), odiar não é legal, porque libera hormônios e neurotransmissores como a Adrenalina e cortisol. Isso não é bom, porque pode gerar confusão no Giro frontal medial, Putâmen, Córtex Pré-motor e insula medial, afetando suas informações sensoriais e cognitivas.  Nós não queremos isso, né?”

                Mas não se trata só disto. Explicar a funcionalidade de valores pela psicologia e neurociência, só confirma o fato de que os próprios valores não têm tido seu reconhecimento intrínseco. Muitas vezes por serem associados às instituições, e não pelo que carregam consigo mesmos, foram negligenciados e submetidos a deterioração temporal na qual as próprias instituições estão submetidas. É importante considerar, também, o contexto cultural da época e que linguagem era mais acessível – O que não significa, em hipótese alguma, que os próprios valores fossem temporais.

                 A envergadura intelectual promovida pela empatia é um desafio que ultrapassa vieses e comportamentos de rebanho. A prática da empatia implica, diretamente, no crescimento pessoal e é arma poderosa contra o preconceito e julgamentos; porque aquele que é capaz de se colocar no lugar do outro antes de julgar, pode encontrar em si mesmo a razão de seu julgamento, como bem disse Freud: “Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo”.

                Olhar para dentro é um ato de heroísmo, pois é doloroso e não visa aplausos. É uma batalha na primeira pessoa do singular; sem plateia, testemunha e a recompensa está no próprio ato. É o contato com as próprias misérias e o abrir de portas para descobrir os esqueletos escondidos no armário. Portanto, é muito mais fácil reconhecer essas mazelas no outro e criticá-las, esquivando-se da própria dor que o olhar para dentro resultaria.

“Se eu errei, aponta meu erro, mas, se não errei, por que me bate?” João 18:23.

Referências bibliográficas

Adelman, G. “The Neurosciences Research Program at MIT and the Beginning of the Modern Field of Neuroscience.” Journal of History of Neurosciences, v. 19, p. 15-23, 2010.

Bear, M. F.; Connors, B. W.; Paradiso, M. A. Neurociências: Desvendando o sistema nervoso. 2a ed. Porto Alegre: Artmed, 2002.

Bennett, M. R.; Hacker, P. M. S. Philosophical foundations of neuroscience. Oxford: Blackwell Press, 2003.