Crônicas, pensamentos e reflexões.

Arquivo para maio, 2024

Sobre escrever

Às vezes uma ideia vem como um miado; outras vezes, como um grito. Há aqueles dias em que ela chega com um porrete e dá na minha cabeça.

Já houve várias noites em que eu tive que levantar e procurar uma caneta para rabiscar algo (hoje em dia o celular facilitou esse processo) e, embora muitas dessas anotações foram parar no lixo, outras renderam crônicas.

Geralmente não me privo na hora escrever por mais que, no início, a ideia pareça absurda. Depois, de certa forma, ela se desenvolve e consigo juntar as partes separadas por vários “TABs” em algo que faça algum sentido.

É, não escrevo de forma linear, pois, enquanto escrevo um parágrafo, uma conclusão pode me saltar a mente e tenho que escrevê-la em outra parte da página antes que ela se perca no limbo.

Críticas, anseios, sublimações, teorias ou até diálogos com um leitor imaginário – como neste exato momento – são válidos. Certa vez, vi uma folha seca sobre a cama e escrevi o texto “Sobre os talentos”. Ou seja, não há um critério preestabelecido. Talvez isso expresse a liberdade, uma forma de transformar minhas próprias sombras em personagens e debater com elas. O autoconhecimento quando eu termino de escrever e, após reler, me escapar um “Eu escrevi isso?”  É como se trouxesse algo de um mergulho profundo no inconsciente à luz da razão.

De qualquer forma, a música sempre me acompanha nessa jornada. Mozart poderia receber boa parte dos meus direitos autorais se esses tivessem algum valor real – o que significa sutilmente, que dinheiro não é a razão que me faz escrever desde a adolescência, até porque ele não existe. E talvez esteja aí o segredo de se fazer algo que ama: é o prazer na própria jornada, independente do fim, sempre que possível.

Áudio do texto

O rio

O medo vinha como sombras, com suas formas distorcidas e sem nenhuma chance de saber o que havia entre a fogueira e a parede¹.  O silêncio das vozes caladas quebrado pelos soluços dos condenados por aqueles que sempre têm razão. Oprimido e opressor compondo uma sinfonia de caos, angústia e virtude, mas que, de alguma forma, parecia calma para aqueles que se libertaram de suas amarras e, as margens, só viam o rio passar, calmamente.

Ah, virtude! Como é fácil te confundir com vaidade! Jaz nas almas daqueles a quem segrega, um fundo de respeito e admiração, mas, nas linhas da história da vida, todos saberão quem, de fato, foram: sombras na parede.

Os justos choram e suas lágrimas regam o solo de onde brotará a árvore que, de seus frutos, muitos se alimentarão, pois, da indignação dos justos, muitos se saciarão. E quanto a isso, soberba, não há o que possa fazer; só os verdadeiros nobres derramam lágrimas pelo que é justo, e só essas podem preparar o solo fértil, ao contrário de ti, que quando chora é por raiva ou inveja. Do seu solo só virá lama e decepção.

Seja forte, virtuoso! Pois o grito do coração de uma pessoa virtuosa ecoa no mundo e, sob toda injustiça, há de nascer a esperança.

Longe das amarras o rio continua. De lá é possível ouvir a sinfonia, assim como ver o maestro, a plateia e os músicos.

¹ Referência a Alegoria da Caverna de Platão.

Ah, o viés!

Depois de enfrentar duras críticas, Antônio Viés encontrou-se com seus amigos e, após contar-lhes o que lhe havia acontecido, por unanimidade, estes imediatamente compartilharam da mesma indignação. “Como isso é possível?” – Disse Márcio Contexto que continuou a argumentar: “Seus atos são totalmente justificáveis dentro das possibilidades disponíveis!” – completou com veemência. Jorge Relativista, porém, foi além: “Ora! De forma alguma você errou, afinal, sua causa é nobre!” – afirmou com segurança.

 Antônio Viés estava confortável agora, pois, ainda que seus atos, quando praticados por outros poderiam ser condenáveis, seu contexto e a crença na nobreza de seus fins o isentavam de qualquer culpa.   

Pedro Razão ouvia a conversa sozinho na mesa ao lado. Estava ficando tarde…